Um Rei em Busca de Reabilitação
Envolto em denúncias de tráfico de influência e corrupção, o ex-rei Juan Carlos I buscou um recomeço em Abu Dhabi em 2020, após cinco anos de exílio autoimposto. Sua recém-lançada autobiografia, ‘Reconciliación: Memorias’, escrita com a historiadora Laurence Debray, é uma tentativa de reconciliação com seu passado, família e a Espanha. No entanto, a obra tem sido recebida com irritação, críticas mordazes e silêncio real, sugerindo que a missão de redenção está longe de ser cumprida.
Elogios a Franco e Justificativas para Controvérsias
No livro, Juan Carlos I não esconde sua admiração pelo ditador Francisco Franco, a quem cita 87 vezes, descrevendo-o como “prudente” e “astuto”. Ele também levanta a controversa tese de que “há vítimas dos dois lados da história” ao falar sobre o regime franquista, que deixou um saldo de mais de 100.000 mortos. Para amenizar seu envolvimento em escândalos financeiros, como o recebimento de 100 milhões de dólares do rei saudita em 2008, ele compara sua ação à de um “beduíno no deserto” e lamenta a “transparência” exigida atualmente, contrastando com o passado.
Rancores Familiares e Ausência de Autocrítica
No âmbito familiar, o rei emérito minimiza suas “indiscrições emocionais” e descreve casos extraconjugais como “fictícios”, sem mencionar diretamente a socialite Corinna Larsen, sua ex-amante. Ele expressa mágoa pela ausência de visitas da rainha Sofia e por não ver seus netos, criticando duramente seu filho, o rei Felipe VI, por sua “insensibilidade” e “distanciamento”. A rainha Letizia também é alvo, acusada de “não contribuir em nada para a coesão familiar”.
Críticas da Imprensa e Futuro Incerto
A imprensa espanhola não poupou críticas à obra, classificando-a como um “exercício de engrandecimento de si mesmo” e uma “falha para toda a vida”. Jornalistas respeitados como Iñaki Gabilondo apontam a contradição de um rei que pregava a harmonia e se tornou fonte de discórdia. Apesar das esperanças de Juan Carlos de que um novo governo possa facilitar seu retorno e acesso ao Palácio da Zarzuela, a probabilidade parece remota, dada a persistência de escândalos envolvendo a realeza europeia, e a “dose caprichada” de controvérsias do ex-monarca espanhol.

