O dia em que o bom senso venceu (o atraso)
Em 2013, o futebol brasileiro vivia um cenário de excesso de jogos, clubes endividados e salários atrasados. Nesse contexto, um grupo de jogadores se uniu sob o nome Bom Senso FC, com um protesto simples em campo: um minuto de silêncio no gramado. Fora das quatro linhas, a mensagem era clara: a necessidade de um calendário mais equilibrado e a adoção de princípios de Fair Play financeiro.
Um Grito por Ordem em Meio ao Caos
Na época, as propostas do Bom Senso FC soavam complexas para um sistema acostumado à desorganização. Dirigentes, federações e até sindicatos de atletas resistiram, rotulando o movimento para evitar o debate. O próprio nome, Bom Senso, era uma reivindicação do básico diante de um futebol que ficava para trás em comparação com as práticas europeias de governança e organização.
A Primeira Fissura: O Profut e a Responsabilidade Financeira
A aprovação do Profut em 2015 marcou o primeiro avanço concreto. O refinanciamento das dívidas dos clubes passou a ser condicionado a exigências mínimas de governança e disciplina fiscal. Embora tímido e mal fiscalizado, o Profut reconheceu que os problemas do futebol brasileiro eram estruturais, não apenas episódicos.
O Novo Calendário e o Fair Play Financeiro: A Realidade Impõe o Bom Senso
Mais de uma década depois, o futebol brasileiro começa a implementar as ideias que pareciam óbvias em 2013. O novo calendário nacional, embora imperfeito, é histórico. Ele fortalece competições regionais, amplia o número de clubes com calendário efetivo e traz mais previsibilidade. Esse modelo rompe com a lógica concentradora e inicia a racionalização das temporadas, reduzindo a insanidade de calendários sobrecarregados que prejudicavam a qualidade do espetáculo, a saúde dos atletas e a relação com o torcedor.
Proteção e Sustentabilidade: O Significado do Fair Play Financeiro
A introdução de uma versão inicial do Fair Play Financeiro é um passo crucial para a sustentabilidade do sistema. Essa medida enfrenta a gestão temerária e a bolha inflacionária, reconhecendo que não há futebol forte sem clubes saudáveis e que a competitividade não pode ser construída sobre a inadimplência. O Fair Play Financeiro, defendido pelo Bom Senso FC como proteção para o mercado, clubes, atletas, credores e torcedores, visa garantir a credibilidade de uma indústria bilionária.
Da Resistência à Vanguarda: A Mudança de Narrativa
Há uma ironia histórica: as mesmas medidas que em 2013 geraram acusações de sindicalismo e elitismo agora são vistas como vanguarda e inovação. A realidade impôs seus limites, forçando o reconhecimento do atraso. O mérito do Bom Senso FC não é reivindicar paternidade, mas ter sustentado, com coerência e custo pessoal, a defesa do básico quando este parecia sofisticado demais.
A abertura de mais um Campeonato Brasileiro deve ser vista não apenas como o início de uma nova temporada, mas como a confirmação de que a insistência ética, mesmo derrotada no curto prazo, encontra seu lugar na história. O futebol brasileiro ainda está em obras, e há muito a ser feito.

