Aumento de Afastamentos e Novas Obrigações Legais
Com o tema “Paz. Equilíbrio. Saúde Mental”, o Janeiro Branco de 2026 ganha força como política pública após a sanção da Lei Federal nº 14.556/2023. A campanha, que há mais de uma década promove o debate sobre saúde emocional, eleva a pressão sobre as empresas. A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), em vigor desde agosto de 2024, exige que riscos psicossociais, como estresse, burnout e assédio moral, sejam formalmente mapeados e gerenciados pelas empresas em seus Programas de Gerenciamento de Riscos (PGR).
Juliane Garcia de Moraes, advogada trabalhista, destaca que a NR-1 transformou o contexto cultural criado pelo Janeiro Branco em uma obrigação prática. “A negligência agora tem consequência jurídica e financeira”, afirma. Ações judiciais já consideram a ausência de medidas preventivas estruturadas como agravante, e o Ministério Público do Trabalho tem intensificado a fiscalização.
Indicadores Alarmantes e a “Fadiga Estratégica”
Os números reforçam a urgência: em 2024, o Brasil registrou 472.328 afastamentos por transtornos mentais e comportamentais, um aumento de 68% em relação ao ano anterior. Pesquisas indicam que 52% dos brasileiros consideram a saúde mental o principal problema de saúde do país, e 86% dos trabalhadores relataram sintomas de burnout em 2025. Flávio Lettieri, consultor de lideranças, atribui parte disso à “fadiga estratégica” das empresas, que definem metas ambiciosas sem considerar a capacidade emocional de suas equipes e lideranças.
Saúde Mental no Planejamento Financeiro e Liderança como Ponto Chave
A contadora Patrícia Bastazini enfatiza a necessidade de incluir a prevenção da saúde mental no orçamento e planejamento de 2026. “Falta de escuta, cobranças desproporcionais, rotatividade e absenteísmo impactam diretamente o caixa”, alerta. Ela orienta a inclusão de indicadores de bem-estar e segurança psicológica no planejamento financeiro para atender à NR-1 e evitar passivos trabalhistas. Lettieri complementa que a liderança é o ponto de partida para a mudança. “A liderança define o tom emocional da empresa”, e a implementação da NR-1 começa com a escuta ativa do líder sobre si mesmo e sua equipe, com treinamentos em gestão emocional sendo tão cruciais quanto os técnicos.
Ambientes Pequenos e a Necessidade de Mudança Cultural
Pequenas e Médias Empresas (PMEs) e negócios da área da saúde são particularmente vulneráveis, muitas vezes sem RH estruturado e com donos sobrecarregados. Rúbia Pinheiro, consultora em gestão, observa que mesmo onde há discurso de cuidado, faltam processos de escuta ativa e definição clara de responsabilidades. Ela ressalta que não é preciso uma grande estrutura, mas sim compromisso e continuidade. As empresas devem ir além de ações simbólicas em janeiro, pois a NR-1 exige comprovação de ações preventivas contínuas, e a omissão acarreta custos significativos em afastamentos, rotatividade, passivos trabalhistas e queda de produtividade.

