O “Rei do Bolero” e a Tragédia Pessoal
Lindomar Castilho, um dos ícones da música brasileira nas décadas de 1960 e 1970, teve seu nome associado a um dos crimes mais brutais e comentados do país: o feminicídio de sua ex-mulher, Eliane de Grammond. O caso, ocorrido em 1981, tirou a vida da mãe de sua filha, na época com apenas um ano e oito meses, e desencadeou uma onda de protestos feministas que ecoam até hoje.
O Relacionamento e o Crime
Eliane e Lindomar se conheceram em 1977, nos corredores da gravadora RCA. O casamento, em 1978, foi marcado por exigências do cantor, que a fez abandonar a carreira. A relação se tornou insustentável devido à violência e ao alcoolismo de Lindomar, levando Eliane a pedir o divórcio após um ano. Mesmo separada, ela tentava retomar sua carreira como cantora de MPB quando foi brutalmente assassinada. Na madrugada de 30 de março de 1981, Lindomar invadiu a boate Belle Époque, em São Paulo, onde Eliane se apresentava, e efetuou disparos de revólver calibre 38. Eliane foi atingida no peito e, apesar de socorrida, não resistiu. Carlos Randall, músico que acompanhava Eliane e também foi ferido, conseguiu imobilizar o agressor com a ajuda do dono da casa noturna.
O Julgamento e a Mobilização Social
Preso em flagrante, Lindomar aguardou o julgamento em liberdade por ser réu primário. A situação gerou um constrangimento social, pois a mãe de Eliane era obrigada a receber o assassino da própria filha em casa nos fins de semana, para que ele pudesse ter contato com a neta. O julgamento, realizado apenas em agosto de 1984, mobilizou ativistas feministas que promoveram vigílias em frente ao Tribunal de Justiça de São Paulo, em protesto contra a violência e a tentativa de desqualificar a vítima. Faixas como “Não se mata quem dá a vida” e pichações como “bolero de machão é só na prisão” e “deixem-nos viver” tomaram as ruas da cidade.
A Defesa e as Consequências
A defesa de Lindomar, em uma tática semelhante à utilizada no caso de Ângela Diniz, tentou desqualificar Eliane, alegando que ela era uma mãe negligente e mantinha um caso com Carlos Randall. O próprio Lindomar alegou ter agido sob “violenta emoção” após ter sido agredido por Randall. Ele foi condenado a 12 anos e dois meses de prisão, cumprindo sete anos em regime fechado e o restante em semiaberto, quitando sua pena em 1996. A filha do casal, Lili de Grammont, relatou em entrevistas ter se afastado do pai após compreender as circunstâncias da morte da mãe, mas retomou o contato na adolescência, quando ele já estava fora da prisão. Em uma publicação após a morte de Lindomar, Lili expressou a complexidade de perdoar o pai: “Se eu perdoei? Essa resposta não é simples como um sim ou não, ela envolve tudo e todas as camadas das dores e delícias de ser, um ser complexo e em evolução.”

