O lado B da bebida popular
O coco-verde, símbolo de refrescância e das paisagens cariocas, esconde um potencial problema quando seu descarte não é feito da maneira correta. Em pontos movimentados da cidade, como em frente a estabelecimentos em Copacabana, é comum presenciar a cena de vendedores ambulantes depositando as cascas de coco na calçada, como se fossem lixo comum. O que muitos não sabem é que esse gesto, repetido diariamente, pode gerar uma série de consequências ambientais e urbanas significativas.
Um vilão silencioso para a cidade
Especialistas alertam que a casca do coco-verde é extremamente resistente, podendo levar até uma década para se decompor na natureza. Ao ser descartada nas ruas, ela não se integra facilmente ao solo, como outros resíduos orgânicos. Pelo contrário, sua rigidez a torna um obstáculo para o escoamento da água da chuva, contribuindo para entupimentos de bueiros e agravando o risco de alagamentos, especialmente em bairros densamente urbanizados.
Além do impacto na infraestrutura urbana, a casca do coco se torna um criadouro ideal para o mosquito Aedes aegypti, transmissor de doenças como dengue, zika e chikungunha. A estrutura da casca favorece o acúmulo de água parada, criando um ambiente propício para a proliferação do inseto, principalmente quando o material permanece acumulado por dias sem recolhimento.
Impacto na orla e desperdício de potencial
Nas áreas costeiras, o problema se intensifica. Cascas descartadas próximas à areia ou carregadas pela chuva até o mar podem interferir na dinâmica natural das praias, prejudicar a fauna marinha e até mesmo afetar áreas de desova de tartarugas. O que era para ser um produto natural se transforma em poluição ambiental.
O descarte inadequado também gera custos para o poder público. O coco-verde, por ser pesado e volumoso, sobrecarrega a coleta pública quando tratado como lixo comum e ocupa espaço valioso em aterros sanitários. Ignora-se, assim, o grande potencial de reaproveitamento desse resíduo. Quando descartada corretamente, a casca do coco pode ser triturada e transformada em substrato agrícola, fibra para jardinagem, vasos biodegradáveis e até mesmo em material para construção sustentável.
Iniciativas buscam a solução
Diante desse cenário, a Secretaria Municipal do Meio Ambiente e Clima, em parceria com a Comlurb e a Orla Rio, tem investido no projeto “Coco no Ponto”. Na Praia do Leme, por exemplo, já existem 16 estruturas dedicadas exclusivamente ao recebimento de cascas de coco. A coleta é realizada por carrinhos elétricos movidos a energia solar, e o recolhimento, majoritariamente feito por mulheres, representa uma oportunidade de renda e empoderamento para populações em situação de vulnerabilidade. O material coletado é encaminhado para a Fábrica Verde, onde é processado e transformado em novos recursos, como fibra, biofertilizante e biomassa.
A Secretaria Municipal de Ordem Pública informa que o descarte irregular pode gerar notificações e multas, e que uma equipe será enviada para vistoriar o local mencionado em Copacabana para verificar se os cocos vendidos na Rua Constante Ramos estão sendo descartados incorretamente. A Comlurb reforça que os cocos são resíduos comuns e devem ser descartados em contêineres apropriados, e não nas vias públicas.

