O Mês da Conscientização sobre Leucemia e a Revolução das Terapias-Alvo
Fevereiro marca a campanha nacional de conscientização sobre a leucemia, um câncer do sangue e medula óssea que afeta anualmente cerca de 11,5 mil brasileiros. Apesar da complexidade do diagnóstico, os avanços recentes na medicina de precisão, especialmente com o uso de terapias-alvo, têm trazido novas esperanças aos pacientes. Diferentemente da quimioterapia tradicional, esses medicamentos avançados atuam de forma específica em moléculas e proteínas cruciais para o crescimento tumoral, poupando células saudáveis.
Leucemia Mieloide Aguda (LMA): De Diagnóstico Sombrio a Remissões Duradouras
A evolução terapêutica é particularmente notável na leucemia mieloide aguda (LMA), o subtipo mais comum em adultos. Médicos com décadas de experiência relatam a transição da LMA de uma doença com prognóstico limitado para uma condição onde uma parcela crescente de pacientes alcança remissões de longa duração. Por muitos anos, as opções de tratamento para LMA se resumiam à quimioterapia intensiva e, em casos específicos, ao transplante de medula óssea. Contudo, a LMA frequentemente acomete indivíduos acima dos 60 anos, faixa etária que muitas vezes não tolera tratamentos agressivos, e mesmo quando tolerados, os resultados da quimioterapia eram subótimos.
Entendendo a Complexidade Genética da LMA e o Papel das Terapias-Alvo
A ciência hoje compreende melhor o porquê dessa limitação: a LMA é um dos cânceres com maior número de mutações genéticas mapeadas. Na década de 1970, a sobrevida em cinco anos para pacientes idosos com LMA era de apenas 8%. Atualmente, ao analisar as assinaturas genéticas específicas de cada tumor e aplicar terapias-alvo direcionadas, em conjunto com um suporte clínico aprimorado, observa-se uma melhora gradual nas taxas de sobrevida. Estudos indicam que, para certas mutações, é possível mais do que triplicar a sobrevida global mediana e levar metade dos pacientes à remissão.
O Desafio do Acesso à Testagem Molecular e a Importância da Conscientização
Apesar dos avanços, um novo desafio surge: a necessidade de identificar precisamente as alterações genéticas em cada paciente para prescrever a terapia-alvo correta. Descobriu-se que muitos pacientes apresentam múltiplas mutações genéticas simultaneamente (mais de 86% dos pacientes com LMA têm duas ou mais alterações genéticas). Os testes moleculares capazes de identificar essas alterações ainda são caros e não estão amplamente disponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS) ou na saúde suplementar. Projetos de pesquisa, parcerias e programas de suporte da iniciativa privada, como o IDHentifique (que oferece análise gratuita da mutação IDH1), têm viabilizado esses exames para alguns pacientes. Campanhas como o Fevereiro Laranja são, portanto, fundamentais não apenas para o diagnóstico precoce, mas também para discutir o acesso equitativo à medicina de precisão e novas perspectivas de tratamento, incentivando políticas públicas que garantam o acesso tanto aos tratamentos quanto às testagens adequadas.

