Centenas nas Ruas de Caracas
Centenas de trabalhadores e aposentados tomaram as ruas de Caracas nesta segunda-feira (23) para expressar sua insatisfação com os salários e aposentadorias considerados “de fome” e “de morte”. Congelados há quatro anos e severamente corroídos pela inflação crônica, os rendimentos básicos na Venezuela se tornaram insuficientes para cobrir as necessidades mais essenciais. A manifestação representa um novo, ainda que modesto, ponto de pressão sobre o governo interino de Delcy Rodríguez.
A Realidade Salarial na Venezuela
O salário mínimo na Venezuela, atualmente equivalente a cerca de 28 centavos de dólar (aproximadamente R$ 1,46), contrasta drasticamente com uma inflação anual que ultrapassa os 600%. O último ajuste salarial, decretado em 2022, estabeleceu uma renda base de 28 dólares (R$ 146). A aposentada Pilar Navarro, 72 anos, desabafou à agência AFP: “Isso já não é um salário!”. Ela relata a dependência de ajuda familiar para a compra de medicamentos, evidenciando a precariedade da situação.
Bônus Insuficientes Frente à Cesta Básica
Mesmo com a inclusão de bônus estatais, que podem elevar a renda mensal para cerca de 150 dólares (R$ 786), o valor permanece longe do necessário. Estimativas apontam que a cesta básica de alimentos para uma família venezuelana custa aproximadamente 645 dólares (R$ 3.380). Um cartaz na manifestação, ironicamente com o lema “Free the salario” (Libertem o salário), em alusão ao slogan chavista “Free Maduro”, resumiu o sentimento dos presentes.
Bloqueio e Exigências Sindicais
A marcha, que tinha como destino o Ministério do Trabalho, foi impedida por um bloqueio de motociclistas apoiadores do chavismo e pela atuação de policiais antimotim. Os sindicatos reivindicam um aumento do salário mínimo para 200 dólares (R$ 1.048), sugerindo a utilização de recursos provenientes do fundo de receitas do petróleo, administrado pelos Estados Unidos. Griselda Sánchez, dirigente sindical, declarou: “Se entrou dinheiro do petróleo no fundo, devem utilizá-lo para aumentar os salários”. No entanto, economistas apontam que o país não estaria em condições de atender a essa demanda.
Sanções e Debate Econômico
Em paralelo, manifestações chavistas ocorreram para pedir o fim das sanções internacionais, às quais o governo atribui a crise econômica. Washington, após a deposição de Maduro, flexibilizou parcialmente essas medidas. Influentes figuras do governo, como Diosdado Cabello, ministro do Interior, afirmam que sem as sanções seria possível “tratar melhor a questão dos salários”, indicando a complexa relação entre a política externa e a economia interna venezuelana.

