O agronegócio brasileiro, após anos de forte expansão e alavancagem, está passando por um ajuste significativo em sua estrutura corporativa. A prioridade agora se volta para a gestão financeira, uma resposta direta a um cenário macroeconômico mais desafiador, marcado pela volatilidade dos preços das commodities, aumento dos custos de produção e um crédito mais restrito.
Aumento na Demanda por Especialistas em Finanças e Risco
Um reflexo direto dessa mudança de rota é o expressivo aumento na procura por profissionais das áreas financeira, de crédito e de risco. Dados de um levantamento da FESA Group, especialista em gestão de pessoas, revelam que a demanda por esses talentos no agronegócio dobrou em 2024 e continua em ascensão em 2025. As vagas ligadas a crédito e risco apresentaram alta de 36%, enquanto posições financeiras, como gerentes, controllers e CFOs, registraram um aumento de 53%. A região Centro-Oeste, coração do agronegócio nacional, concentra a maior parte dessas oportunidades.
Do Boom à Necessidade de Prudência Financeira
Entre 2018 e 2022, o setor viveu um período de prosperidade, impulsionado pela alta nos preços de commodities como a soja e pela valorização do dólar. Esse ambiente favorável permitiu expansão e avanços em governança. Contudo, a partir de 2023, o cenário se inverteu: a elevação das taxas de juros penalizou empresas com alto endividamento e elevou a inadimplência, enquanto os preços das commodities e o dólar perderam força. Essa transição exigiu uma gestão mais atenta ao fluxo de caixa, especialmente para empresas familiares que antes operavam com modelos de gestão mais informais.
Expertise em Renegociação e Gestão de Riscos em Alta
A expertise em renegociação de dívidas e uma política de gestão de riscos mais robusta tornaram-se cruciais. A forte procura por executivos capazes de lidar com estruturas financeiras complexas e apoiar decisões estratégicas, principalmente em captações e renegociações de dívidas, sinaliza uma tendência de longo prazo. Empresas de maior porte, com faturamento anual acima de R$ 800 milhões, buscam lideranças financeiras (heads e diretores), enquanto as de menor porte (receita entre R$ 200 milhões e R$ 700 milhões) demandam gerentes administrativos/financeiros e controllers. A gestão de risco, que antes podia ser baseada em relações pessoais, agora exige um ajuste estrutural nas companhias.
Desafios na Contratação e Perspectivas Futuras
A busca por esses profissionais enfrenta obstáculos. Geograficamente, a concentração das empresas no Centro-Oeste limita a oferta de talentos locais. Adicionalmente, a exigência de conhecimento específico do setor restringe ainda mais o universo de candidatos. Para empresas de maior porte, a participação de sócios estrangeiros pode demandar o domínio de outros idiomas. A formação de mão de obra especializada no agronegócio não tem acompanhado o crescimento da demanda, o que pode elevar a remuneração oferecida. Essa adaptação ocorre em um contexto de compressão de margens, com custos de produção elevados e preços internacionais menos favoráveis. A futura reforma tributária, prevista para 2027-2028, também deverá impulsionar a demanda por advogados, consultores e contadores especializados, exigindo antecipação por parte das empresas para se posicionarem de forma vantajosa.

