Tradutor Alemão De “grande Sertão” Revela “algo Diabólico” E A Luta Contra O Hermetismo De Guimarães Rosa

Tradutor alemão de “Grande Sertão” revela “algo diabólico” e a luta contra o hermetismo de Guimarães Rosa

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A complexidade de um clássico brasileiro no exterior

Traduzir “Grande Sertão: Veredas” para o alemão foi um desafio monumental para Berthold Zilly. O tradutor, já experiente com obras como “Os Sertões” de Euclides da Cunha e “Memorial de Aires” de Machado de Assis, confessou que a obra de Guimarães Rosa o levou a questionar sua própria capacidade. “Há algo de diabólico nesse texto”, afirmou Zilly, referindo-se à pluralidade de significados, ambiguidades e ao distanciamento das convenções linguísticas e lógicas que caracterizam a prosa rosiana.

A nova versão alemã, intitulada “Grosser Sertão: Querungen”, tem lançamento previsto para o início de 2027. O trabalho de Zilly chega quase simultaneamente à nova tradução em inglês, “Vastlands: The Crossing”, de Alison Entrekin. Ambas as traduções somam mais de duas décadas e meia de esforço para capturar a essência de um romance que parece resistir a qualquer tentativa de ser plenamente desvendado.

O hermetismo intencional de Guimarães Rosa

Zilly explica que a dificuldade em traduzir Rosa reside na sua linguagem singular, marcada pela musicalidade, hermetismo e um afastamento deliberado da racionalidade cartesiana. “O autor não escreveu para ser compreendido completamente”, pontua o tradutor. Segundo ele, o hermetismo e a indeterminação semântica são intencionais, visando alcançar camadas mais profundas da psique humana, mobilizando emoções e o subconsciente.

Diferentemente de Euclides da Cunha, cuja prosa, embora poética, respeita as regras da língua e da razão, Guimarães Rosa explora a sonoridade da linguagem com maestria. Aliterações, assonâncias e rimas compõem um repertório estilístico que Zilly se esforçou para reconstruir em alemão. “Às vezes tenho a impressão de que o autor se entendia como feiticeiro”, comenta, referindo-se ao poder mágico que Rosa buscava imprimir em sua obra.

Sertão: um conceito brasileiro que atravessa fronteiras

A escolha de manter a palavra “sertão” em alemão, tanto na tradução de Euclides da Cunha quanto na de Guimarães Rosa, foi deliberada. Zilly explica que “sertão” é um termo fundamental para o imaginário e a história brasileira, e sua preservação na tradução ajuda a manter a conexão com a tradição literária e cultural do Brasil. A palavra teria ganhado espaço no idioma alemão a partir de estudos sobre o Brasil no século XIX e, mais tarde, com a primeira tradução de “Grande Sertão: Veredas” por Kurt Meyer-Clason.

O título da nova tradução alemã, “Grosser Sertão: Querungen”, busca manter a estrutura bipartida do original e a palavra “sertão”, ressaltando a importância do conceito para a identidade brasileira, mesmo diante da singularidade linguística da obra.

Esperança e contradição nas veredas da alma humana

Apesar da dureza e violência retratadas em “Grande Sertão: Veredas”, Zilly enxerga esperança e utopia nas “veredas” da obra. Para ele, as veredas representam um espaço de paz, felicidade e harmonia, em contraste com o sertão, palco de conflitos. O romance, segundo o tradutor, aborda a violência e a esperança de superá-la, promovendo uma convivência pacífica e civilizada em todos os níveis.

Zilly descreve o romance como multifacetado: psicológico, sociológico, de guerra, de amor, e até mesmo com questões de gênero e espiritualidade. A obra de Riobaldo, protagonista complexo e contraditório, reflete as contradições da alma humana, tornando “Grande Sertão: Veredas” um romance universal que transcende suas raízes profundamente brasileiras.

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