A maternidade, que antes era vista como um entrave ou um ponto final para a carreira de atletas de alto rendimento, está se tornando uma realidade cada vez mais presente e apoiada no cenário esportivo global. Por anos, a escolha entre a profissão e a família era quase inevitável para muitas mulheres. No entanto, ligas e confederações têm revisado seus posicionamentos, implementando políticas de suporte que permitem às atletas conciliar a maternidade com a continuidade em suas modalidades.Futebol Feminino: CBF Lidera em Apoio às Mães AtletasNo Brasil, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) deu um passo significativo no final de 2025, ao anunciar que passaria a custear as viagens de filhos de atletas em fase de amamentação a partir da temporada de 2026. Um exemplo notável é a atacante Ketlen Wiggers, artilheira do Santos, que deu à luz Lucca em novembro de 2025. Mesmo durante a gestação, Ketlen manteve os treinos e, apenas quatro meses após o parto, já estava de volta às atividades. A CBF informou que quatro jogadoras já se beneficiaram do recurso: Florencia Soledad Jaimes (Internacional), Angela Soares Neves (Remo), Miriam Farias da Silva (Itapuense) e Rosileide Gomes da Cunha (Ypiranga).Ondas de Maternidade: O Exemplo do Surfe e da WSLO surfe também demonstra avanços. A medalhista olímpica Tati Weston-Webb, que deu à luz Bia Rose em fevereiro deste ano, competiu grávida de 17 semanas em junho de 2025, na etapa de Saquarema do circuito mundial. Planejando retornar em 2027, Tati será beneficiada pelo Season Wildcard, uma medida que garante vaga na elite para surfistas que precisam interromper a carreira temporariamente devido à gravidez. Em março deste ano, a World Surf League (WSL) anunciou o "convite de maternidade", que permite o retorno direto ao Championship Tour (CT) sem a necessidade de passar pelas divisões de acesso. Contudo, Tati não poderá usufruir deste benefício específico em 2026, pois ele é concedido a apenas uma atleta por temporada, tendo sido priorizado para a francesa Johanne Defay, ex-campeã mundial.Vôlei: Uma Tradição de Mães em Quadra e Lutas por DireitosO vôlei possui uma rica história de atletas que conciliaram a maternidade com o alto rendimento. Isabel Salgado, nos anos 80, foi pioneira ao jogar até o sexto mês de gestação. Mais recentemente, em 2025, Pri Heldes disputou uma partida da Superliga grávida de cinco meses. Outras atletas como a bicampeã olímpica Paula Pequeno e Karine Guerra também atuaram durante a gestação. A central Tandara Caixeta, que jogou até o quinto mês de gravidez, foi a primeira atleta a buscar na Justiça brasileira direitos trabalhistas ligados à maternidade, vencendo uma ação contra o Praia Clube, que havia reduzido seu salário a 0,5% após a gravidez.A Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) oferece suporte através do "Fundo Especial de Apoio ao Atleta" desde 2023, auxiliando financeiramente atletas sem vínculo com clubes em casos como gravidez. Quatro atletas já utilizaram o fundo por conta da gestação. No vôlei de praia, desde 2021, as atletas que se ausentam por gravidez têm seus pontos no ranking congelados por até 24 meses, podendo retornar às competições sem perda esportiva.Tênis e Judô: Diferentes Caminhos na Conciliação Profissional e MaternidadeO tênis também avançou com a WTA, que em março de 2025, lançou um plano inédito de benefício para jogadoras mães. O projeto, em parceria com o Fundo de Investimento Público Saudita, oferece até 12 meses de licença-maternidade remunerada, além de bolsa para tratamento de fertilidade e outros benefícios. Embora mais de 320 jogadoras sejam elegíveis, há critérios específicos, como o número de torneios WTA disputados em um determinado período.Em contraste com esses avanços, o caso da campeã olímpica de judô Sarah Menezes levantou debates. Treinadora da Confederação Brasileira de Judô (CBJ), Sarah foi demitida em fevereiro deste ano, menos de um ano após o nascimento de sua segunda filha, em maio de 2025. Em uma publicação no Dia Internacional da Mulher, Sarah questionou: "Por que uma mulher precisa escolher? Atleta, campeã e mãe. Tudo ao mesmo tempo!". A CBJ, em nota, esclareceu que a decisão se deu por uma reestruturação da comissão técnica, "meses após o retorno dela da licença-maternidade". A confederação informou que atualmente não possui um programa de apoio à maternidade, sendo comum no judô que atletas escolham ser mães após encerrarem a carreira. Este contraste destaca que, apesar dos progressos, a jornada para a plena conciliação entre maternidade e alto rendimento ainda apresenta desafios e disparidades entre as modalidades.