Pastora rompe o silêncio sobre abusos em cultos A líder religiosa Helena Raquel, da Assembleia de Deus Vida na Palavra, proferiu um discurso considerado inédito durante o Congresso dos Gideões, em Balneário Camboriú (SC), no último dia 2 de maio. Em sua pregação, Raquel abordou a pedofilia e o abuso sexual cometidos por pastores, acusando lideranças de acobertar agressores e ignorar vítimas. A fala expôs uma cultura de proteção institucional que, segundo ela, precisa ser enfrentada dentro das próprias igrejas. A mensagem repercutiu nas redes sociais, encorajando vítimas a compartilharem suas experiências e evidenciando que os abusos no ambiente religioso não afetam apenas mulheres, mas também homens que, como Edson Cordeiro, guardaram silêncio por décadas. O trauma de Edson Cordeiro aos 14 anos O cantor Edson Cordeiro, de 59 anos, compartilhou sua dolorosa experiência em entrevista à VEJA. Ele relembra que sua mãe frequentava a igreja do Evangelho Quadrangular em busca de um milagre para o pai, alcoólatra. Cordeiro, que gostava da música e do louvor, sofreu abuso de um líder carismático e admirado pela comunidade quando tinha 14 anos. Na época, a igreja reprimia fortemente a sexualidade, e o jovem era instruído a orar diariamente para evitar sonhos eróticos, algo que ele levava muito a sério. Abuso após busca por ajuda espiritual Apesar de ter uma namorada na igreja, Edson sentia atração por homens e buscou ajuda espiritual. Ele confidenciou seus sentimentos à namorada, que, por sua vez, comunicou o pastor. O líder religioso o convidou para ir à sua casa com a desculpa de fazerem música, momento em que o abuso ocorreu. Chocado e sem dormir, Cordeiro ouvia o abusador dizer que deveriam orar, mas encontrou forças para ir embora. Ele acredita que o pastor tentou dominá-lo pela culpa. O que o salvou, segundo ele, foi o acolhimento de sua família, que o resgatou imediatamente daquela igreja. Rompendo o ciclo de silêncio A corajosa fala da pastora Helena Raquel e o testemunho de Edson Cordeiro contribuem para romper um ciclo de silêncio que por muito tempo prevaleceu em muitas instituições religiosas. A exposição desses casos visa não apenas dar voz às vítimas, mas também pressionar por mudanças estruturais que garantam a segurança e o acolhimento de todos os fiéis, especialmente os mais vulneráveis.