O Fascínio Perturbador das Distopias Climáticas Em um cenário onde enchentes históricas, recordes de temperatura e extinções em massa dominam as manchetes, a leitura de distopias climáticas ganha um fascínio quase perverso. É como folhear um manual de instruções que chegou tarde demais. Essa sensação é palpável no novo livro de Ian McEwan, "O que Podemos Saber", ambientado em 2119, um mundo que sobreviveu a duras penas a uma hecatombe climática, agravada por guerras nucleares e tsunamis. O planeta transformou-se em um arquipélago de picos montanhosos, com cidades europeias submersas e os Estados Unidos mergulhados em guerras civis. A Nigéria emerge como potência tecnológica hegemônica. A Busca por um Poema em um Mundo em Ruínas O protagonista, o professor Thomas Metcalfe, especialista no período literário de 1990 a 2030 – a última era antes da "grande inundação" –, embarca em uma jornada para encontrar um poema perdido de 2014. Escrito por um poeta brilhante, porém negacionista, o poema nunca foi publicado e sua reputação cresceu em proporção à sua ausência. McEwan evita armadilhas de distopias banais, optando por extrapolar fatos do presente – aquecimento global, guerras, pandemias – até suas consequências lógicas, resultando em um cenário perturbador e reflexivo. O Crescimento da Ficção Climática (Cli-Fi) "O que Podemos Saber" insere-se no gênero "cli-fi" (climate fiction), que ganhou força nas últimas duas décadas. Embora autores como Octavia Butler e Ursula K. Le Guin já abordassem o colapso ambiental, e no Brasil, Ignácio de Loyola Brandão tenha antecipado uma Amazônia extinta em 1981, a ficção climática literária contemporânea adquiriu uma urgência renovada. McEwan, com sua escrita sofisticada, eleva o gênero, questionando o papel da literatura quando o mundo desmorona. O protagonista, obcecado por um poema em vez de soluções práticas, reflete sobre a negligência humana diante da crise. A Literatura como Testemunha do Antropoceno A ficção climática, antes relegada a subgêneros especulativos, tem derrubado preconceitos ao se tornar cada vez mais cotidiana e urgente. Eventos recentes, como as enchentes no Rio Grande do Sul, parecem saídos de um livro ou filme, segundo o pesquisador George Amaral. Essa tendência literária, segundo ele, reflete uma mudança na percepção humana sobre o tema, em linha com o conceito do Antropoceno. No Brasil e no exterior, títulos como "Água Turva", "Contra Fogo", "O Deus das Avencas", "A Trama das Árvores" e "O Fim de Onde Começamos" exemplificam a diversidade e a força do cli-fi. McEwan, com "O que Podemos Saber", contribui com uma obra que, além de cenário apocalíptico, propõe uma profunda reflexão filosófica sobre o legado da humanidade e o papel da arte como testemunha melancólica e eloquente dos tempos em que a escolha foi desperdiçada.