Aura de combatente da corrupção reacende esperanças e desconfianças
A figura de Joaquim Barbosa, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), evoca para muitos brasileiros a imagem de um implacável combatente da corrupção. Sua atuação no julgamento do mensalão, que resultou na condenação de figuras proeminentes da política nacional, consolidou essa percepção. Após sua aposentadoria em 2014, Barbosa manteve-se recluso, mas seu nome voltou a circular nos noticiários como uma potencial candidatura à Presidência da República, um movimento que já ensaiou em eleições passadas e recuou. Desta vez, seu retorno à arena eleitoral ocorre em um momento em que escândalos de corrupção ganham destaque na agenda pública, impulsionados por casos recentes como os envolvendo o Banco Master e fraudes no INSS.
Anúncio surpresa na Democracia Cristã gera rebelião interna
O novo passo de Joaquim Barbosa na política não começou de maneira serena. Sua filiação e anúncio como pré-candidato à Presidência pela Democracia Cristã (DC) causaram surpresa e revolta. O ex-ministro Aldo Rebelo, que já estava em campanha pela mesma sigla, declarou que sua pré-candidatura está mantida e que pode recorrer à Justiça contra a decisão do partido. A troca de presidenciável, anunciada pelo ex-deputado João Caldas sem consulta prévia aos diretórios estaduais, gerou reações contundentes. Paulo Cesar Quartiero, presidente da DC em Roraima, criticou a escolha, afirmando que Barbosa representa o que o partido mais detesta: “a esquerda e o Supremo”. Já Cândido Vaccarezza, presidente da legenda em São Paulo, classificou a candidatura como “inapoiável”, acusando Barbosa de iniciar o “lawfare” no Brasil e de não possuir compromisso com a democracia nem experiência política.
Viabilidade da candidatura: um caminho incerto e com obstáculos
Apesar do alvoroço causado pelo anúncio, a participação de Joaquim Barbosa na corrida presidencial é cercada de incertezas. O próprio ex-ministro sinalizou que sua candidatura só se concretizará se “algumas condições” forem atendidas, incluindo “sentir boa receptividade”, algo que não parece ter ocorrido dentro da DC. Seu histórico de desistências em pleitos anteriores, como em 2018 e 2022, quando filiou-se ao PSB, alimenta o ceticismo. Especialistas apontam a falta de recursos, a ausência de tempo de rádio e TV e a baixa capilaridade da DC como grandes desafios. Para Eduardo Grin, cientista político da FGV-SP, o projeto pode ser uma estratégia da sigla para superar a cláusula de barreira e obter acesso a fundos partidários e eleitorais.
O apelo da luta contra a corrupção e os riscos para a imagem de Barbosa
A estratégia de lançar um nome com histórico de combate à corrupção em um cenário de escândalos é compreensível e tem precedentes de sucesso, como a eleição de Sergio Moro para o Senado. A imagem de Barbosa como um magistrado íntegro, que levou corruptos para a cadeia, pode ter forte apelo. No entanto, a empreitada pode expô-lo a desgastes e forçá-lo a abandonar seus negócios na iniciativa privada, onde atua em advocacia consultiva. A entrada de Barbosa na disputa eleitoral traria de volta à pauta temas sensíveis para o PT e outros partidos. Contudo, a sucessão de escândalos também gera ceticismo no eleitorado, que anseia por estadistas sérios e honestos na agenda de combate à corrupção. Resta saber se o tema será suficiente para impulsionar a pretensão presidencial de Barbosa e se, desta vez, ele confirmará sua participação na corrida.

