Um novo e alarmante relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) revela que aproximadamente 1,1 bilhão de crianças, o que representa quase metade da população infantil global, reside em áreas sujeitas a pelo menos três tipos de riscos climáticos. Estes incluem enchentes, temporais severos, secas prolongadas, incêndios florestais, tempestades de areia e ondas de calor intensas. O Impacto Desproporcional na Saúde e Desenvolvimento Infantil O estudo, que introduz uma nova base de dados para auxiliar governos na formulação de políticas de adaptação climática, destaca que a crise climática afeta a infância de maneira desproporcional. Danilo Moura, especialista em clima e meio ambiente do Unicef Brasil, enfatiza que fenômenos como o calor extremo impactam de forma mais severa crianças pequenas, especialmente nos primeiros dois anos de vida, devido à sua menor capacidade fisiológica de lidar com altas temperaturas. A saúde infantil também é ameaçada pelo aumento de doenças infecciosas e pela poluição, ambos indiretamente ligados ao aquecimento global. Uma análise da Organização Mundial da Saúde (OMS) citada no relatório aponta que quase 90% do impacto de doenças agravadas pela crise climática recai sobre crianças de até 5 anos. Educação Interrompida e Futuros Roubados O relatório também dedica atenção especial às formas como a crise climática prejudica a educação. Eventos como tempestades que destroem escolas e ondas de calor que interrompem o aprendizado “roubam o futuro das crianças”. Em 2024, pelo menos 242 milhões de estudantes em 85 países tiveram sua escolaridade afetada por eventos climáticos extremos. No Brasil, mais de um milhão de crianças tiveram seus estudos interrompidos por longos períodos devido à enchente no Rio Grande do Sul e à seca na Amazônia naquele ano. Brasil: Desigualdade e Vulnerabilidade Climática No Brasil, 16 milhões de crianças estão expostas a três ou mais riscos climáticos, o que equivale a 30% da população infantil. Quando consideramos dois ou mais riscos, o número ultrapassa 30 milhões. Moura ressalta que a vulnerabilidade climática infantil no país está intrinsecamente ligada às desigualdades sociais. As crianças que mais sofrem são aquelas que vivem em periferias, em sua maioria negras, crianças indígenas em comunidades rurais, quilombolas e de outros povos e comunidades tradicionais. O relatório, embora não coloque o Brasil entre os países mais preocupantes, dedica atenção especial a nações como Paquistão, Iraque, Líbano, Camboja e Etiópia, além de pequenos países insulares e a região do Sahel. Dados Detalhados para Ação Eficaz A diretora-executiva do Unicef, Catherine Russel, destaca que os novos dados permitem identificar, com um nível de detalhamento sem precedentes, onde as crianças estão expostas a riscos climáticos dentro de cada país. Essa informação, combinada com dados sobre o acesso a serviços sociais, permitirá que os governos mapeiem as áreas de maior vulnerabilidade e planejem de forma mais eficaz, agindo com rapidez e investindo em serviços resilientes às mudanças climáticas. Os dados estarão disponíveis em nível estadual e municipal no Brasil, auxiliando no planejamento de políticas públicas locais. Um ponto crucial do relatório é que os impactos listados se referem a eventos correntes, sem computar o agravamento esperado com o superamento do limite de 1,5°C de aquecimento global, uma perspectiva que pode se concretizar na próxima década.