O poder do grupo: Identificação e pertencimento ativam o cérebro do torcedor Apesar de a empolgação com a Copa do Mundo poder variar a cada edição, a ciência aponta que o contágio comportamental e a sensação de pertencimento a um grupo, como a torcida por uma seleção nacional, amplificam o entusiasmo. Tiago Bortolini, neurocientista do Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino, dedica-se há mais de uma década a desvendar o cérebro do torcedor. Ele explica que temos uma facilidade natural em nos identificar com grupos, mesmo que os critérios de separação pareçam arbitrários. As pesquisas de Bortolini, que utilizam desde ressonância magnética até psicologia experimental, buscam entender tanto a violência nos estádios quanto os aspectos positivos da paixão pelo futebol. O neurocientista aponta que o futebol, assim como outras formas de agremiação social, como nacionalidade ou raça, acentua a tendência humana de colaborar com pessoas do seu grupo. Essa colaboração recruta áreas cerebrais associadas à 'filiação interpessoal', as mesmas que se ativam ao pensarmos em familiares próximos. Esse fenômeno é o que ele chama de 'apego estendido', a capacidade humana de se vincular não apenas a pessoas, mas também a conceitos abstratos. Fusão de identidade: Quando o torcedor se torna o time Um conceito chave nos estudos de Bortolini é a 'fusão de identidade', que descreve o quanto um indivíduo considera sua identidade pessoal e a do grupo como inseparáveis. Essa fusão pode ocorrer em diversos grupos sociais, incluindo torcidas de futebol, religiões e nacionalidades. Quando essa fusão é intensa, a pessoa age como se ela e o grupo fossem uma única entidade. Essa identificação extrema pode levar a respostas agressivas quando o grupo é percebido como ameaçado. Estudos indicam que indivíduos com maior fusão de identidade tendem a agir de forma mais hostil contra grupos externos, o que pode, em casos extremos, manifestar-se como violência. O ambiente do estádio: Sintonia cerebral e o risco da violência O ambiente sensorial dos estádios, com gritos de guerra, coros e baterias, intensifica a sensação de pertencimento e a sintonia do torcedor com o time. Bortolini explica que essa sincronia, como o canto em uníssono da torcida, 'turbina' o comportamento em relação a grupos rivais. Pesquisas realizadas com tarefas econômicas mostraram que torcedores que escutaram cantos sincronizados e possuíam fusão de identidade demonstraram maior propensão a comportamentos hostis em relação a torcedores de equipes rivais. A violência, segundo o neurocientista, pode surgir em situações de oposição ou quando há uma percepção de ameaça, como em confrontos com a polícia, onde o torcedor pode se sentir encurralado e reagir de forma agressiva. Torcida por clubes vs. Seleção: Uma questão de proximidade e continuidade A identidade do torcedor com clubes de futebol, especialmente no Brasil, tende a ser mais forte do que com a seleção nacional. Bortolini atribui isso à proximidade e continuidade. A escolha de um clube ocorre geralmente na infância, e o acompanhamento é frequente, com jogos semanais e a possibilidade de ir ao estádio. Em contrapartida, os jogos da seleção são esporádicos, e os jogadores, muitas vezes, atuam em ligas estrangeiras, dificultando a criação de um vínculo mais profundo e contínuo. Embora a Copa do Mundo possa gerar um apego temporário à seleção, a falta de continuidade entre os eventos não sustenta o mesmo nível de identificação que os clubes proporcionam. Futebol como modelo para entender a identidade de grupo A escolha do futebol como objeto de estudo por Bortolini e sua equipe se deu pela capacidade do esporte em isolar o fenômeno da identidade de grupo. Diferente de estudos sobre religião ou regionalismo, o futebol, em muitos casos no Brasil, não está atrelado a dogmas ou questões morais complexas, permitindo uma análise mais pura do comportamento coletivo. A identificação com um clube é, em geral, um vínculo para a vida toda, muitas vezes herdado de familiares, e não definido por características biológicas ou pré-definições. Essa natureza do futebol como um fenômeno cultural, arbitrário e duradouro o torna um modelo ideal para extrapolar conclusões sobre a identidade e o comportamento humano em diversos grupos sociais.