O Mito da Visibilidade Absoluta Em um mundo cada vez mais conectado e, paradoxalmente, desconfiado, a transparência se tornou um ideal quase absoluto. No entanto, o jornalista e filósofo Hamilton dos Santos, em seu ensaio "Contra a Transparência", publicado pela editora Iluminuras, lança um olhar crítico sobre essa ânsia por visibilidade total. Santos argumenta que a busca incessante por transparência, longe de construir confiança, pode gerar o efeito oposto: mais suspeita e corrosão das relações sociais e institucionais. Transparência Institucional vs. Valor Absoluto O autor faz uma distinção crucial entre a transparência como ferramenta institucional, essencial para a democracia e a prestação de contas, e a transparência como um valor moral absoluto, uma panaceia ilusória. "Sociedades complexas não se sustentam apenas sobre informação: elas se sustentam sobretudo com base na confiança", afirma Santos. Ele explica que a confiança, por sua vez, depende de um delicado equilíbrio entre o que se sabe e o que não se sabe, pois a própria natureza humana carrega um grau de opacidade. A Distorção nas Redes Sociais e Empresas A cultura da transparência, exacerbada pelas redes sociais, leva a uma hiperexposição performática que, segundo Santos, confunde visibilidade com verdade. Plataformas digitais, ao priorizarem a exposição, transformam a transparência em uma obrigação subjetiva, onde a imagem é administrada estrategicamente, gerando mais performance do que autenticidade. Da mesma forma, empresas que se proclamam "transparentes" não eliminaram escândalos de corrupção; pelo contrário, a sofisticação dos sistemas de rastreamento tem sido acompanhada pela sofisticação dos mecanismos para contorná-los. O Risco da Suspeita Generalizada A obsessão pela transparência total pode levar à criação de ambientes de vigilância permanente, julgamento contínuo e até linchamentos morais. Tudo passa a ser interpretado como potencial ocultação ou má-fé, erodindo a reputação, a responsabilidade e a confiança mútua. "A sociedade da transparência está mais para uma distopia que deve ser questionada do que uma utopia que deva ser cultivada", conclui Santos. O caminho para resgatar a credibilidade social, segundo ele, passa por uma compreensão mais madura da vida pública, reconhecendo que a confiança se constrói na reputação e na responsabilidade ao longo do tempo, e não na eliminação completa da opacidade.