Brasília, 1986: Uma Nova Vida em Meio à Redemocratização e à Crise Pessoal O ano é 1986 e a redemocratização do Brasil é o pano de fundo para a história de Helena (Carolina Dieckmann), que se muda para Brasília. Cercada pela arquitetura imponente de Oscar Niemeyer, a dona de casa se vê em uma encruzilhada de vida quando o marido a abandona abruptamente após uma viagem de trabalho. Este é o cenário de Pequenas Criaturas, filme que conquistou o troféu máximo do Festival do Rio 2025 e que, com delicadeza, espelha a crise pessoal de sua protagonista com o turbulento momento político e social do país. Helena precisa equilibrar seu drama pessoal com o dever de cuidar dos filhos, o adolescente André (Théo Medon) e o pequeno Gustavo (Tomaz Lino). Carolina Dieckmann: Imersão Profunda em Helena Sob a direção sensível de Anne Pinheiro Guimarães, Carolina Dieckmann entrega o que muitos consideram sua mais impressionante atuação cinematográfica. Inspirada nos conselhos da cineasta, nas memórias de sua própria mãe e em relatos de mulheres que passaram pela mesma situação, a atriz mergulhou na complexidade de Helena. Em entrevista, ela revela que, apesar de ter 8 anos em 1986, não buscou revisitar sua própria infância, mas sim compreender a personagem. “Os anos 1980 são minha maior referência cultural e visual. Se pudesse voltar no tempo, iria para aquela época, porque ela tem uma força muito grande na minha vida”, confessa Dieckmann, destacando que a inspiração para Helena veio da própria diretora e de sua mãe, além de memórias de sua própria genitora dirigindo um carro similar ao utilizado no filme, que exigia mais força do que os veículos atuais. Maternidade como Pilar e o Desafio de Atuar com Crianças A experiência de ser mãe de dois filhos, assim como Helena, foi um diferencial para Carolina. “Sempre ajuda. Acho que, mesmo quando não estou interpretando uma mãe, não consigo separar isso de mim. A maternidade é muito soberana e não dá para invalidar ela em qualquer processo emocional que eu tenha no trabalho. O olhar de mãe é uma coisa definitiva”, afirma a atriz. Trabalhar com os jovens Théo Medon e Lorenzo Mello foi uma experiência marcante. Dieckmann elogia o profissionalismo dos garotos, que, segundo ela, já haviam passado por um mês de preparação com a coach Isabela Garcia. “Quando comecei a trabalhar com eles, eles exibiram um profissionalismo até estranho para meninos tão novos. O Lorenzo, aos oito anos, tinha muito respeito por mim no set. O trabalho da Isabela é impressionante”, relata. Brasília: A Solidão que Molda a Personagem A capital federal também se apresenta como uma personagem crucial na narrativa. A atriz revela que a locação em Brasília a impactou profundamente, especialmente no que diz respeito à solidão. “Só o fato de estar longe de casa já muda tudo. Esse filme exigia uma carga emocional muito forte durante muitas horas, e eu não podia voltar para meu lar e ser acolhida. Um hotel não oferece isso. Você nunca sai totalmente do personagem, porque está entre ele e alguém que está longe de casa. Alguém que não é totalmente você”, explica. Um Filme Atemporal sobre o Cotidiano Feminino Apesar de se passar em um período específico, Pequenas Criaturas é visto por Carolina Dieckmann como um filme atemporal. Longe de caricaturas oitentistas, a produção foca em uma questão humana e universal: “Quantas mulheres são deixadas todos os dias?”. A atriz reflete que, embora o país tenha passado por muitas transformações desde 1986, muitas dúvidas e dilemas persistem. Cinema vs. Televisão: Dois Mundos Fascinantes Vivendo uma fase prolífica no cinema com filmes como Pequenas Criaturas e (Des)controle, Carolina Dieckmann não esconde seu fascínio por ambos os meios. “O cinema é uma imersão e proporciona a sensação de estar fazendo algo supostamente eterno”, descreve, elogiando a intensidade e a concentração exigidas. Por outro lado, ela reconhece a importância da televisão: “A televisão me deu muita musculatura. Você consegue fazer 30 cenas por dia com uma carga emocional imensa e ainda atingir uma quantidade enorme de pessoas.”