Prática comum em destino popular causa impactos ambientais inesperados Uma prática comum entre turistas que visitam a famosa Ilha dos Coelhos, no Japão, pode estar provocando mudanças profundas no ecossistema local. Um estudo publicado na revista científica Journal of Ecotourism concluiu que a alimentação frequente dos coelhos por visitantes mantém a população desses animais artificialmente elevada, altera a vegetação da ilha e favorece comportamentos incomuns entre diferentes espécies, como javalis tentando caçar coelhos vivos. A pesquisa, conduzida por cientistas da Universidade de Fukushima, do Instituto Nacional de Tecnologia (Kosen) Kure College e do Kobe College, surgiu a partir de uma colaboração com os criadores do livro infantil Usagi no Shima ("Ilha dos Coelhos"). Localizada na província de Hiroshima, a ilha de Okunoshima é um dos destinos turísticos mais conhecidos do Japão por abrigar centenas de coelhos que circulam livremente e interagem com visitantes. Segundo os pesquisadores, os animais não são lebres japonesas nativas, mas coelhos domésticos europeus introduzidos na ilha há décadas. Coelhos dependentes da comida humana e vegetação impactada De acordo com o estudo, a população desses coelhos está fortemente relacionada à alimentação fornecida pelos turistas. Observações anteriores mostraram que o número de animais aumentou significativamente antes da pandemia de Covid-19 e diminuiu quando o fluxo de visitantes caiu temporariamente, reforçando a dependência da espécie da oferta humana de alimento. Os impactos já são visíveis na vegetação: o intenso pastoreio dos coelhos eliminou grande parte das plantas rasteiras e dos galhos mais baixos das árvores, formando uma marca conhecida pelos pesquisadores como "linha dos coelhos", que evidencia a pressão exercida sobre o ambiente. Javalis predando coelhos vivos: um sinal de alerta ecológico Além das mudanças na paisagem, os cientistas observaram alterações nas relações entre espécies. Javalis foram vistos consumindo restos de comida deixados por turistas, alimentando-se de carcaças de coelhos e, em alguns casos, tentando atacar animais vivos. "Quando ouvimos pela primeira vez que um javali havia predado um coelho vivo, ficamos surpresos. Sabe-se que javalis consomem carcaças, mas eles normalmente não são considerados animais que caçam presas vivas ativamente", afirmou Shingo Kaneko, professor da Universidade de Fukushima e principal autor do estudo. Segundo Kaneko, a proximidade entre humanos, coelhos e javalis chamou a atenção durante o trabalho de campo. "Durante nossa pesquisa, ficamos impressionados com o quão próximas eram as interações entre javalis, coelhos e pessoas na ilha. Nesse ambiente isolado, pareciam ocorrer situações incomuns que normalmente não observamos em outros lugares", disse. Os autores destacam que a caça de coelhos por javalis não é o principal problema identificado, mas um dos sinais das alterações ecológicas provocadas pela alimentação suplementar ao longo dos anos. Efeitos em cascata na cadeia alimentar e recomendações para o turismo Os pesquisadores acreditam que a comida deixada pelos turistas atrai javalis para áreas com grande concentração de coelhos. Ao mesmo tempo, a elevada densidade desses animais aumenta a disponibilidade de carcaças e a frequência dos encontros entre as duas espécies, favorecendo comportamentos raros em condições naturais. O estudo também identificou que outras espécies oportunistas, como corvos e milanos-negros, passaram a explorar restos de alimentos e animais mortos, indicando que os efeitos da prática se espalham por toda a cadeia ecológica da ilha. Apesar dos resultados, os autores ressaltam que o turismo de observação da vida selvagem não é prejudicial por si só. A recomendação é que a alimentação dos animais seja regulamentada e monitorada para evitar impactos indesejados sobre o ecossistema. Entre as medidas sugeridas estão o controle da venda e do fornecimento de alimentos aos coelhos, o monitoramento da população e da recuperação da vegetação, além da avaliação dos efeitos sobre outras espécies. Os pesquisadores também defendem a cooperação entre comunidades locais, operadores turísticos, cientistas e autoridades para desenvolver estratégias que conciliem turismo, conservação ambiental e bem-estar animal.