Economistas do Bradesco divergem da postura do Banco Central sobre a taxa Selic, argumentando que há margem para cortes mais expressivos. A principal justificativa reside na natureza temporária dos choques inflacionários e nos sinais de desaceleração econômica. A equipe de análises econômicas do banco Bradesco avalia que o Banco Central (BC) poderia adotar uma política monetária mais flexível, com cortes mais acentuados na taxa Selic. Segundo o economista-chefe do Bradesco, Fernando Honorato, a inflação, embora ainda fora da meta, tem sido influenciada por choques de preços pontuais, como os decorrentes da guerra entre Estados Unidos e Irã. Estes impactos, na visão do banco, tendem a ser passageiros, enquanto a economia já demonstra sinais de arrefecimento, o que naturalmente contribui para a moderação dos preços. Choques de Preços e Câmbio Estável como Pilares para Juros Menores Honorato destacou que o câmbio apresenta fundamentos para se manter estável em torno de R$ 5, o que favorece o controle inflacionário. Além disso, a perda de tração da economia e a menor persistência do choque de preços do petróleo, que não atingiu os patamares inicialmente temidos, são fatores que indicam uma tendência de queda na inflação. Essas condições, na perspectiva do Bradesco, abrem espaço para que o BC avance com mais cortes na Selic. Projeção do Bradesco e Crítica à Conservadorismo do Copom Recentemente, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central anunciou um corte de 0,25 ponto percentual na Selic, reduzindo-a para 14% ao ano. No entanto, o comunicado posterior sinalizou uma piora nas pressões inflacionárias e evitou compromissos com futuros cortes. O Bradesco, por sua vez, revisou sua projeção para a Selic ao final de 2026 de 13,25% para 13,75%, refletindo uma postura mais cautelosa após o comunicado do Copom. Contudo, Honorato ressaltou que a projeção interna ainda aponta para um potencial de queda até 13,25%, indicando que o Copom foi “muito conservador”. Inflação Projetada e Adaptação do Mercado Internacional O Bradesco projeta que o dólar permanecerá na faixa de R$ 5 a R$ 5,29, impulsionado pelo cenário externo e pelas exportações. Essa estabilidade cambial contribuiu para a redução da projeção de inflação do banco para 5% ao final de 2026. Embora este número ainda ultrapasse o teto da meta de inflação, o banco atribui essa elevação a efeitos temporários, como o choque do petróleo, que já demonstra sinais de dissipação com a busca por alternativas e a adaptação do mercado internacional. Honorato concluiu que “o pior já passou” no que diz respeito aos impactos da guerra sobre os preços da energia.