Empresário Indiciado e Confirma Cultura de Omissão José Luiz Felícia Filho, proprietário e presidente da Voepass, foi formalmente indiciado pela Polícia Federal por atentado contra a segurança do transporte aéreo e por sinistro aéreo com resultado de morte. Em depoimento, ele admitiu ter ciência de uma prática recorrente na empresa: a omissão de falhas técnicas nos registros oficiais das aeronaves. O inquérito investiga a queda de um avião da Voepass em Vinhedo, em 2024, que resultou na morte de 62 pessoas. A investigação aponta que essa "cultura de omissão" visava impedir que aeronaves fossem retidas para manutenção, priorizando a continuidade da operação aérea em detrimento da segurança. Felícia Filho confirmou que sabia da rotina de pilotos e mecânicos de não registrar panes no Livro de Bordo para evitar pernoites em locais sem estrutura de manutenção. Ele declarou: "Sim, já tinha esse conhecimento. A aviação regional costuma ser o primeiro emprego de muita gente... e havia, de fato, essa prática de deixar para reportar na próxima base de manutenção." Alertas da ANAC Ignorados pela Alta Gestão A omissão de falhas, segundo a PF, não era desconhecimento da alta gestão, mas uma escolha operacional consciente dos riscos. Felícia Filho confirmou ter sido pessoalmente alertado por diretores da ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil) sobre esse padrão de conduta. Contudo, a Polícia Federal constatou que não houve uma atuação efetiva para modificar o cenário de perigo. O relatório final da PF destaca que o próprio investigado confirmou ter ciência da cultura de omissão, afastando qualquer alegação de desconhecimento. Ao analisar o caso da queda do voo 2283 em Vinhedo, o dono da companhia reconheceu a falha sistêmica que permitiu a decolagem da aeronave com o sistema de degelo inoperante para uma rota com previsão de gelo severo. "A aeronave não deveria estar naquela condição, mas também não deveria ter sido despachada para aquela rota", afirmou Felícia. 16 Pessoas Indiciadas e Relatório Detalha Falhas Ao todo, 16 pessoas foram indiciadas pela Polícia Federal por atentado contra a segurança do transporte aéreo. Os indiciados respondem de acordo com sua responsabilidade na cadeia decisória que liberou a aeronave para o voo em condições de risco. José Luiz Felícia Filho foi indiciado três vezes pelo crime de atentado contra a segurança do transporte aéreo e uma vez por sinistro aéreo com resultado de morte. O relatório do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) aponta que a aeronave ATR-72 não deveria ter decolado com o sistema de proteção contra acúmulo de gelo (Airframe De-Icing) inoperante. O acúmulo de gelo nas superfícies da aeronave degradou seu desempenho, levando à perda de velocidade, estol aerodinâmico, perda de controle e, consequentemente, à queda. A investigação também identificou erros da tripulação durante o voo, que demorou a reconhecer a gravidade da situação e não executou os procedimentos de emergência em tempo hábil. Voepass Afirma Prioridade em Segurança e Colaboração Em nota, a Voepass reiterou que a segurança operacional sempre foi sua prioridade e que a empresa adota rigorosamente todos os protocolos de segurança, manutenção e capacitação de tripulações previstos pela Anac. A companhia declarou que a tripulação do voo 2283 era composta por profissionais experientes e que a empresa colaborou integralmente com as investigações, disponibilizando todos os documentos solicitados. A Anac informou que iniciará uma análise técnica detalhada das conclusões e recomendações do relatório, ressaltando que as investigações do Cenipa têm caráter preventivo e visam aprimorar a segurança da aviação civil. A empresa reafirmou sua solidariedade às famílias das vítimas e permanece à disposição das autoridades para quaisquer esclarecimentos necessários.