Promessa de "déficit zero" sob escrutínio A gestão de extrema direita do presidente argentino Javier Milei, que ascendeu ao poder com a promessa de austeridade fiscal e o fim das "velhas práticas políticas", enfrenta agora seu maior desafio. Uma série de reportagens investigativas e denúncias judiciais aponta que o governo federal teria retido e desviado fundos públicos milionários, originalmente destinados à infraestrutura rodoviária, hídrica e de transportes. Em vez de obras, o dinheiro dos contribuintes teria sido direcionado para aplicações financeiras e, sob forte suspeita de fisiologismo, para transferências políticas estratégicas em momentos cruciais para votações no Congresso. O esquema: Impostos em postos de gasolina e o destino do dinheiro O escândalo se inicia na bomba de combustível. Cada motorista que abastece seu veículo na Argentina paga impostos sobre os combustíveis, cujos recursos, por lei, deveriam ser obrigatoriamente aplicados na construção e manutenção da infraestrutura do país. No entanto, uma investigação do jornal argentino La Nación revelou uma discrepância alarmante entre o arrecadado e o investido. Desde o início do mandato de Milei até meados deste ano, o imposto sobre combustíveis gerou cerca de 1,5 trilhão de pesos (aproximadamente US$ 1 bilhão). Deste montante, apenas 25% foi efetivamente repassado para obras rodoviárias. O paradeiro do restante dos fundos é o cerne da polêmica. A reportagem do La Nación aponta que aproximadamente US$ 668 milhões (o saldo não utilizado) foram alocados em investimentos financeiros, como depósitos a prazo fixo e aquisição de títulos governamentais. Adrián Ravier, porta-voz da Presidência, admitiu que parte da verba do Fundo do Sistema Rodoviário Integrado (SisVial) foi utilizada para "alcançar o equilíbrio fiscal", um dos pilares da política econômica de Milei. Ele defendeu a medida argumentando que as rodovias deveriam ser financiadas por investimento privado, não por dinheiro do contribuinte, e criticou gestões passadas por, segundo ele, também não aplicarem integralmente os repasses nas estradas. Estradas em ruínas e a revolta popular Enquanto o governo busca inflar seus balanços financeiros com o objetivo de superávit, o impacto direto é sentido pela população. Sob o pretexto de "falta de verba", o governo Milei decretou a paralisação quase total de obras públicas, resultando em cerca de dois anos e meio sem manutenção básica na malha viária. O cenário nas estradas argentinas é alarmante, com buracos profundos, acostamentos danificados e um alto risco de acidentes. Dados do Sindicato dos Trabalhadores das Rodovias (Fepevina) indicam que 70% das estradas federais estão em estado regular a ruim. Especialistas alertam que a falta de manutenção preventiva reduz drasticamente a vida útil do pavimento. O escândalo se estende: água, transporte e o fantasma da "velha política" A retenção de verbas não se limitou ao setor rodoviário. Investigações do site Chequeado indicam que, dos 375 bilhões de pesos (cerca de US$ 250 milhões) arrecadados em 2024 para obras de infraestrutura hídrica, apenas um terço foi efetivamente gasto, com o restante também sendo desviado para títulos do Tesouro e depósitos bancários. O mesmo padrão de retenção e investimento financeiro foi observado no fundo fiduciário de infraestrutura de transporte. A oposição acusa o governo de uma manobra deliberada para criar um superávit fiscal artificial. A congressista Marcela Pagano denunciou que quase US$ 4 bilhões em verbas destinadas a projetos específicos ficaram sem uso em três anos. Além disso, outra denúncia grave, divulgada pelo jornalista Hugo Alconada Mon, aponta que o governo realizou transferências de 33 bilhões de pesos (aproximadamente US$ 22 milhões) do programa SisVial para cinco províncias argentinas. O detalhe explosivo é o momento dessas transferências: ocorreram dias antes de votações legislativas cruciais, como a reforma trabalhista e a Lei de Proteção das Geleiras, sugerindo que os recursos do imposto sobre combustíveis foram usados como moeda de troca política, aproximando a gestão Milei das práticas que ele prometeu combater. Ofensiva jurídica e pressão no Congresso Diante das revelações, a oposição intensificou seus ataques nos tribunais e no Legislativo. A deputada Victoria Tolosa Paz protocolou uma ação judicial exigindo uma investigação criminal contra o Ministro da Economia, Luis Caputo, e outros funcionários, por suspeita de peculato, fraude, abuso de poder e conduta incompatível. O bloco de oposição também solicitou que Caputo preste esclarecimentos ao Congresso. A pressão judicial ganhou força com a decisão do juiz federal Ernesto Kreplak, que aceitou uma ação coletiva para garantir a aplicação legal dos recursos do SisVial em projetos de infraestrutura e determinou um prazo de dez dias para que o Ministério da Economia, a Direção Nacional de Rodovias e o Banco Nación respondam sobre o uso dos fundos. O caso lança dúvidas sobre a narrativa de transparência e austeridade do governo Milei, evidenciando que o equilíbrio fiscal pode ter sido alcançado às custas da infraestrutura e do bolso do contribuinte argentino.