Os vilões do sabor que afetam sua saúde Aroma, aparência e sabor irresistíveis podem esconder um perigo para a saúde. Além de contribuírem para a obesidade, aditivos presentes em alimentos ultraprocessados, como aromatizantes, corantes e adoçantes, também podem elevar o risco de hipertensão. Um estudo recente, publicado na revista científica European Heart Journal, é o primeiro a investigar como ingredientes específicos desses produtos podem aumentar a incidência de pressão alta, condição que afeta mais de 1 bilhão de pessoas globalmente e cerca de 30 a 38 milhões no Brasil. Metodologia da pesquisa: um olhar aprofundado sobre o consumo alimentar A pesquisa analisou dados de 101.560 participantes do UK Biobank, um banco de dados de saúde pública do Reino Unido, todos sem hipertensão no início do estudo. Com idade mediana de 56 anos, os voluntários preencheram formulários detalhados sobre seu consumo alimentar nas últimas 24 horas, utilizando a ferramenta digital Oxford WebQ. Para classificar e quantificar o consumo de alimentos ultraprocessados e minimamente processados, os pesquisadores coletaram listas de ingredientes, tamanhos de porções e informações nutricionais de até 10 marcas comerciais para cada alimento listado. Essa análise abrangeu 2.595 produtos e acompanhou os participantes por uma média de 10,5 anos. Durante esse período, 7.633 indivíduos foram diagnosticados com hipertensão. Ingredientes sob suspeita: adoçantes e açúcares no radar A pesquisa identificou que o consumo de certos ingredientes em alimentos ultraprocessados está significativamente associado ao desenvolvimento de hipertensão. Dos 33 aditivos não processados (ANPs) analisados individualmente, 15 apresentaram uma ligação com a ocorrência de pressão alta. Destes, 11 mostraram uma associação positiva, indicando que quanto maior a presença desses componentes nos alimentos consumidos, maior a incidência de hipertensão observada. Entre os principais vilões estão: Acessulfame (adoçante) Aspartame (adoçante) Eritritol (adoçante) Sacarina (adoçante) Sucralose (adoçante) Xilitol (adoçante) Agente de volume (usado para aumentar peso ou volume) Dextrose (tipo de açúcar) Frutose (tipo de açúcar) Proteína hidrolisada Proteína do soro do leite Por outro lado, o consumo de alimentos com realçadores de sabor, auxiliares de processamento, óleo modificado e fibras adicionadas não demonstrou associação com o risco de hipertensão arterial. O impacto do "sabor adicionado" e as limitações do estudo Pesquisas anteriores do mesmo grupo já haviam associado o "sabor adicionado" em ultraprocessados ao ganho de peso e obesidade. Os corantes, por exemplo, podem alterar a percepção sensorial, enquanto adoçantes podem dessensibilizar a relação entre o doce e a energia, levando a uma compensação com maior ingestão calórica. O alto teor de açúcar em muitos desses produtos também contribui para o consumo excessivo e o risco de obesidade, que, por sua vez, pode estar ligado à hipertensão. Os autores sugerem que esses ingredientes podem promover a alimentação excessiva e o ganho de peso, fatores que influenciam a pressão arterial. No entanto, o estudo reconhece limitações, como a impossibilidade de acompanhar mudanças na dieta ao longo do tempo e a influência de outros fatores de risco não medidos com precisão. A identificação da hipertensão baseada apenas em registros de diagnóstico e o relato autorreferido da dieta também podem ter introduzido imprecisões. Apesar disso, os resultados apontam para a necessidade de reavaliar a classificação desses componentes e investigar os mecanismos que ligam seu consumo à hipertensão, considerando-os "candidatos ideais para estratégias de redução do consumo excessivo de alimentos".