Avanço do mercado ilegal exige resposta integrada do Estado Especialistas reunidos em Brasília nesta quinta-feira (27) alertaram para o crescimento do mercado ilegal no Brasil. A atuação de organizações criminosas em diversas cadeias produtivas demanda uma integração maior entre órgãos públicos, fiscalização, inteligência e políticas regulatórias e tributárias. Dados da Receita Federal revelam que R$ 2,2 bilhões em mercadorias irregulares foram apreendidos até junho deste ano, abrangendo desde cigarros e eletrônicos até medicamentos emagrecedores. Contrabando evolui de pequenos transportadores para estruturas criminosas sofisticadas Edson Vismona, presidente do Fórum Nacional Contra a Pirataria e a Ilegalidade (FNCP), destacou que o contrabando passou por uma transformação significativa nas últimas décadas. Deixou de ser uma atividade restrita a pequenos transportadores para se tornar um "sistema econômico criminoso", com a participação de organizações e milícias em diferentes etapas da cadeia produtiva. "Há 20 anos, tínhamos sacoleiros trazendo produtos do Paraguai. Hoje temos estruturas sofisticadas, cada vez mais empenhadas", afirmou Vismona. Ele ressaltou que a alta lucratividade do não pagamento de impostos estimula a ilegalidade e defendeu que a reforma tributária considere esse impacto. Perdas bilionárias e novos mercados em foco O Fórum Nacional Contra a Pirataria e a Ilegalidade estima que as perdas causadas pelo mercado ilegal saltaram de R$ 100 bilhões em 2014 para R$ 473 bilhões no ano passado, sendo R$ 146 bilhões referentes a tributos não arrecadados. Cerca de 50 setores, como celulares, bebidas e cigarros, são afetados. A Receita Federal, por sua vez, apreendeu cerca de R$ 2 bilhões em mercadorias irregulares entre janeiro e junho de 2025, valor que subiu para R$ 2,2 bilhões no mesmo período deste ano. Um dos mercados que mais chamam a atenção é o de medicamentos emagrecedores, com apreensões que cresceram de R$ 4 milhões para mais de R$ 80 milhões no primeiro semestre deste ano. Necessidade de inteligência e cooperação internacional Erivelto Moysés Torrico Alencar, superintendente-adjunto da Receita Federal, defendeu a cooperação entre os órgãos públicos para evitar a fragmentação de informações e ampliar o combate ao crime organizado. Leandro Piquet, professor da USP, enfatizou a necessidade de especialização e forte componente de inteligência tributária e financeira, aliada à investigação criminal. Ele também alertou que políticas regulatórias devem considerar a infiltração do crime organizado na economia. "Qualquer esforço de regulação por parte de uma agência precisa levar em conta a natureza completa da infiltração do crime organizado na economia brasileira", disse Piquet, argumentando que a proibição de produtos pode apenas deslocar o problema para a área da segurança pública.