Da Invenção à Vinha: A Trajetória Inusitada de Yves Vatelot A história de Yves Vatelot no mundo do vinho é tão peculiar quanto sua origem: um inventor industrial. Vatelot foi o responsável pela criação de um dos primeiros depiladores elétricos femininos, o Epilady, lançado mundialmente pela Braun. Mas sua paixão não parou por aí. Em busca de recursos para adquirir um castelo, Vatelot vendeu sua empresa de desenvolvimento de produtos em 1990 e comprou o Château de Reignac, na prestigiada região de Bordeaux, na França. A Revolução Silenciosa de Reignac A transformação do Château de Reignac levou uma década. Vatelot reorganizou a produção e reinventou a identidade dos vinhos. O ponto de virada ocorreu em 2001, com uma degustação às cegas que mudaria a percepção sobre a vinícola. Um vinho de apenas 15 euros (cerca de R$ 90 na época) foi colocado lado a lado com ícones de Bordeaux que custavam até 1.300 euros, como Haut Brion, Margaux e Cheval Blanc. O resultado foi surpreendente: o Reignac não apenas se igualou, mas brilhou, provando que a qualidade não precisava vir atrelada a um preço exorbitante e ao prestígio do rótulo. Essa filosofia de oferecer alta qualidade a um preço justo se mantém até hoje, conquistando cerca de 15.000 clientes diretos. Inovação em Cada Garrafa: Do Rosé ao Balthus A inovação é marca registrada de Vatelot. Recentemente, o Château de Reignac lançou seu primeiro vinho rosé, 100% Merlot. Com um preço de R$ 233, o rótulo tem conquistado o público com seu frescor e qualidade, ideal para harmonizar com pratos leves. Entre os tintos, o R de Reignac (R$ 299), um Cabernet Franc safra 2012 sem passagem por madeira, destaca-se pela intensidade frutada e vocação gastronômica. A estrela, no entanto, é o Balthus 2016 (R$ 1.666), um 100% Merlot que já recebeu 92 pontos de Robert Parker. Homenagem ao filho Baltazar e uma referência ao renomado Petrus, o Balthus é fruto de um sistema de fermentação patenteado por Vatelot, que utiliza pequenas barricas com lâminas móveis para garantir uma extração delicada e um vinho acessível sem longos anos de envelhecimento. Tradição e Tecnologia: O DNA de Bordeaux Vatelot não vê tradição e inovação como opostas. Ele acredita que a união de elementos naturais, como a floresta e a biodiversidade da propriedade, com novas ferramentas de vinificação, como seu sistema de fermentação em barricas, eleva a qualidade dos vinhos. A propriedade, localizada entre Bordeaux e Saint-Émilion, possui características geográficas que permitem o trabalho com diferentes uvas, como Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Merlot, adaptando o corte a cada safra. A vinícola conta ainda com uma torre para degustações às cegas e uma estufa projetada por Gustave Eiffel, atraindo 10.000 visitantes anualmente. Um Legado em Movimento Aos 73 anos, Yves Vatelot celebra mais de três décadas dedicadas ao Château de Reignac. Seu maior orgulho não é financeiro, mas sim a realização de sua visão inicial: criar um grande Bordeaux sem transformá-lo em peça de museu, tornando a qualidade acessível. Para ele, vinho caro é todo aquele que não é bom. Sua trajetória, do inventor ao produtor de vinhos, demonstra que a tradição, quando aliada à inovação, pode ser um projeto em constante movimento e com impacto geracional.