Crise Institucional Ganha Dimensão Profética nas Redes Evangélicas A atual crise envolvendo os ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes no Supremo Tribunal Federal (STF) transcendeu o âmbito jurídico e ganhou uma nova e poderosa dimensão nas redes sociais, especialmente entre o eleitorado evangélico. Lideranças religiosas e políticas alinhadas ao bolsonarismo têm reinterpretado o conflito como uma batalha espiritual, utilizando profecias, orações e referências bíblicas para enquadrar Mendonça como um "escolhido de Deus" e Moraes como um "adversário espiritual". Este fenômeno foi detalhado no oitavo relatório sobre narrativas evangélicas, produzido pela Casa Galileia em parceria com o Instituto Democracia em Xeque (DX). O levantamento, que monitorou publicações entre 31 de agosto e 13 de setembro, analisou mais de 26 mil resultados em 573 perfis, gerando cerca de 189 milhões de interações. Mendonça como "Escolhido" e Moraes como "Adversário" No contexto do escândalo do Banco Master, que envolve supostos diálogos entre Moraes e o ex-dono da instituição, Daniel Vorcaro, a narrativa sobre Mendonça mudou. Ele deixou de ser apenas um personagem na disputa interna do STF para ser apresentado como alguém cuja trajetória estaria sob intervenção divina. Uma antiga "profecia" da pastora Valnice Milhomens, que apontava Mendonça como instrumento de Deus, voltou a circular como confirmação dos eventos recentes. Mobilizações de oração em favor do ministro por líderes como os apóstolos Estevam e Sônia Hernandes também foram registradas. A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro contribuiu para essa construção ao relembrar a indicação de Mendonça ao STF, relatando uma visão em um retiro espiritual que teria previsto sua entrada na Corte. O pastor Cláudio Duarte, por sua vez, traçou paralelos entre Mendonça e Jair Bolsonaro, destacando o papel da oração na trajetória de ambos. A simbologia bíblica é recorrente: Mendonça é comparado a Daniel na cova dos leões pelo teólogo Caio Modesto, e o senador Magno Malta (PL-ES) evoca o Livro de Ester para sugerir uma missão divina para o ministro. Em contrapartida, Moraes é associado ao "pecado", à mentira e à falsidade, enquanto Mendonça é retratado como "herói nacional", "pastor levantado por Deus" e "homem de Deus". O pastor Anderson Silva utiliza a história do rei Belsazar, do Livro de Daniel, para associar Moraes à "embriaguez pelo poder", e o pregador Israel Santos afirma que "nenhuma cadeira torna alguém intocável diante de Deus". Conteúdos favoráveis a Mendonça chegam a representar Moraes como uma figura demoníaca. Da Crise Institucional à Polarização Eleitoral Essa reconfiguração da crise institucional como uma batalha espiritual ocorre em um momento crucial: a proximidade do primeiro turno das eleições presidenciais. Lideranças evangélicas têm explicitado suas escolhas, com intensificação da contracampanha contra Lula e novos apoios públicos a Jair Bolsonaro. O apóstolo Estevam Hernandes declarou voto em Bolsonaro, e o candidato tem aparecido em igrejas de pastores como André Fernandes e Valdemiro Santiago. O pastor Cláudio Duarte tem convocado eleitores a votar contra Lula, e a pastora Valnice Milhomens associa o voto em candidatos de esquerda ao comunismo, aborto e drogas, questionando a compatibilidade com a identidade cristã. O engajamento nas redes sociais reflete essa polarização. Entre lideranças políticas evangélicas, Nikolas Ferreira liderou em interações, seguido por Flávio Bolsonaro e Magno Malta. Do campo da esquerda, André Janones se destacou, com forte mobilização em defesa de Lula e críticas ao bolsonarismo e a figuras como André Mendonça. Disputa pela Narrativa Cristã na Política O relatório também aponta uma tentativa de lideranças evangélicas ligadas à esquerda de disputar a interpretação sobre o que significa ser cristão na política. Nomes como Henrique Vieira, Aava Santiago, Benedita da Silva e Marina Silva associam religião à democracia, justiça social e proteção dos vulneráveis, utilizando passagens bíblicas para questionar a coerência de discursos religiosos adversários. Aava Santiago critica o uso eleitoral de lemas como "Deus, Pátria e Família", afirmando que a fé evangélica estaria sendo transformada em capital eleitoral. Apesar dos esforços da esquerda, a presença da direita no ecossistema evangélico digital se mostra predominante em termos de engajamento. O período analisado indica uma intensificação das narrativas políticas no ambiente evangélico, com menor espaço para conteúdos estritamente religiosos e maior circulação de mensagens diretamente ligadas à eleição presidencial.