O que parece ser uma epidemia de transtornos mentais pode ser um reflexo das pressões da sociedade contemporânea. Em um tempo onde siglas como TDAH, ludopatia e transtorno borderline saltaram dos consultórios para o cotidiano, a psicóloga Flávia Albuquerque propõe uma reflexão profunda sobre a linha tênue entre o sofrimento humano e a patologia mental em seu novo livro, "Despatologiza – A Vida que Não Cabe no Diagnóstico Psiquiátrico". A autora argumenta que a crescente medicalização da vida, impulsionada por um sistema que individualiza o mal-estar, obscurece as causas sociais do adoecimento e limita o acesso a um cuidado verdadeiramente eficaz. A "Era da Patologização" e o Deslocamento dos Diagnósticos Albuquerque observa que, assim como em outras épocas, a psiquiatria contemporânea elegeu novos focos de patologização. Se antes a ansiedade e a depressão dominavam o cenário, hoje o TDAH e o autismo ganham destaque. Contudo, a psicóloga ressalta que não houve um aumento real na incidência desses quadros, mas sim uma mudança na visibilidade e na forma como a sociedade os interpreta. Essa transformação, segundo ela, está intrinsecamente ligada às exigências de um projeto neoliberal que demanda sujeitos cada vez mais individualistas e produtivos. O Alívio do Diagnóstico: Uma "Absolvição Patologizante" O alívio sentido por muitos ao receber um diagnóstico é real e compreensível, especialmente em uma sociedade que historicamente estigmatiza o sofrimento psíquico. O diagnóstico, nesse contexto, pode funcionar como uma "absolvição patologizante", transferindo a culpa de uma falha moral para uma condição biológica. No entanto, Albuquerque alerta que essa aparente solução cobra um preço alto: a internalização da lógica patologizante e a responsabilidade individual pela "correção" de uma suposta anomalia, sem questionar as estruturas sociais que geram o mal-estar. Despatologizar: Um Caminho para o Cuidado Integral A despatologização, conforme proposta por Flávia Albuquerque, não significa a abolição da linguagem diagnóstica, mas sim a construção de um paradigma de cuidado que não dependa exclusivamente de um CID para operar. Isso implica fortalecer a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), que oferece um cuidado territorial e voltado para a reinserção social, em detrimento de modelos segregacionistas. Mais do que isso, a autora defende que políticas públicas que garantam condições dignas de vida – moradia, trabalho, segurança – são essenciais para a saúde mental. Afinal, o sofrimento, em grande parte, é produzido pelas circunstâncias concretas da vida, e o cuidado verdadeiro deve abordar tanto o indivíduo quanto o mundo que o cerca. A Linha Tênue entre Diversidade e Patologia A psicóloga questiona a própria existência de uma linha objetiva que separe a diversidade humana da patologia. Sem marcadores biológicos claros na psiquiatria, os diagnósticos se baseiam em interpretações subjetivas e critérios muitas vezes vagos, como "raiva inadequadamente intensa". Essa subjetividade, segundo Albuquerque, pode levar à patologização de comportamentos que são, na verdade, respostas a contextos sociais e culturais. A distinção fundamental, para ela, reside entre o sofrimento, que é real e inegável, e o "transtorno", que é uma interpretação específica desse sofrimento, frequentemente buscando explicações biológicas para fenômenos complexos. Doping Mental e "Canetas Emagrecedoras": Sintomas de uma Sociedade Adoecedora O uso de medicamentos para aprimoramento cognitivo, o "doping mental", e o boom das "canetas emagrecedoras" são vistos por Albuquerque como sintomas de uma cultura que valoriza o desempenho acima da saúde. Essas práticas, embora possam trazer um alívio pontual, reforçam a ideia de que o indivíduo é o único responsável por se adaptar a um mundo que, por vezes, é insustentável. A psicóloga critica a medicalização e a medicamentalização da vida, onde questões existenciais e sociais são transformadas em problemas a serem resolvidos com fármacos, num ciclo que lucra com a criação e a solução de problemas que, em sua raiz, são coletivos e estruturais.