O Rock in Rio deste ano não está sendo marcado apenas pelos hits nostálgicos de artistas como Ne-Yo e Black Eyed Peas. Uma onda de saudosismo tomou conta da plateia, que tem exibido com orgulho câmeras analógicas e digitais que fizeram sucesso nos anos 2000, época em que o festival ainda acontecia em Jacarepaguá. Para muitos, a escolha desses equipamentos é uma forma de desacelerar e vivenciar o momento com mais intensidade. O Charme da Espera e a Experiência Autêntica Gabriela Baratela, de 30 anos, e Kelvim Fraga, de 34, são um exemplo dessa tendência. Enquanto aguardavam Elton John, eles compartilharam o motivo de usarem uma câmera com filme de 72 poses. "Gosto da ideia de tirar uma foto uma só vez, esperar para ver como vai ficar quando revelar... A gente consegue viver mais o festival sem ficar tirando fotos toda hora", explica Gabriela. Ela acrescenta que prefere viver o momento com calma, apreciando as imagens posteriormente, em vez de focar em postar para os outros verem. Cansaço do Imediatismo e Busca por Estética Thiago Soares, especialista em cultura pop e professor da Universidade Federal de Pernambuco, aponta que o retorno a esses equipamentos reflete um cansaço com a era hipertecnológica e o excesso de imediatismo. "Um dos argumentos é o de um certo esgotamento da dinâmica das telas, das práticas ultradigitalizadas", afirma Soares. Ele observa que parte da juventude, incluindo a Geração Z, que nasceu em meio à cultura digital, desenvolve uma recusa a esse imediatismo, aderindo a estéticas como a das câmeras vintage, da cultura do vinil e até do cassete. A estética imperfeita gerada por essas câmeras – com flash estourado, granulação e cores saturadas – contrasta com a alta definição dos celulares atuais. Essa característica, aliada a referências como a moda Y2K e os iPods, tem atraído jovens adultos e a Geração Z, que buscam reviver a atmosfera de duas décadas atrás. Mais que uma Trend: Um Ritual de Registro Marcella Gribler, que utilizou uma câmera digital à prova d'água para registrar o show de Calvin Harris, destaca o efeito diferente que esses equipamentos proporcionam. "Dá outro efeito tirar fotos com essa câmera em vez do celular", conta. Para ela, a câmera digital cria um ritual para momentos específicos, diferente do celular, que é usado para tudo. Além de evitar a exposição do celular em situações como chuva, a escolha por esses dispositivos promove registros mais espontâneos e menos focados na publicação imediata nas redes sociais. Nostalgia Performática e o Poder das Redes Sociais A influência de celebridades e influenciadores digitais também é um fator relevante. Conteúdos com câmeras compactas de marcas como Canon, Sony, Nikon e Fujifilm viralizam nas redes sociais, transformando a baixa resolução em um charme. Soares complementa que, em muitos casos, há uma "performática da nostalgia", conectada a diversas tendências da cultura digital, como filtros e aplicativos que remetem a épocas passadas. Algumas marcas aproveitaram o momento, oferecendo mini câmeras retrô como brindes, o que reforça o apelo desse modismo entre o público mais jovem.