Nesta quinta-feira, 1º de outubro, celebra-se o Dia Internacional das Pessoas Idosas. A data traz à tona uma reflexão importante sobre o envelhecimento feminino: enquanto as mulheres vivem mais, muitas se deparam com o aumento da solidão. Fatores como a aposentadoria, a viuvez, a saída dos filhos de casa e a perda de amigos podem reconfigurar profundamente a vida social e o senso de pertencimento após os 60 anos. A complexidade da solidão na terceira idade A geriatra Priscila Guerra explica que a solidão feminina na terceira idade vai além de morar sozinha. "A perda do companheiro ou de amigos pode modificar profundamente a rotina de uma mulher mais velha. Não é apenas a ausência daquela pessoa. Mudam os programas, os hábitos, as conversas e até pequenos rituais construídos durante décadas. Quando várias dessas perdas se acumulam, reconstruir uma rede social pode se tornar mais difícil", afirma. Para a psicóloga Cristiane Belmonte, o sinal de alerta surge quando a sensação de estar só se torna um padrão, afetando o sono, o apetite e o ânimo para as atividades diárias. "É importante diferenciar solidão de solitude. Existem mulheres que escolhem passar mais tempo sozinhas e estão bem assim. O sinal de alerta é quando estar sozinha não é uma escolha", pontua. Aposentadoria e a redefinição da identidade A aposentadoria, embora represente liberdade, pode também retirar uma estrutura que organizou horários, relações e parte da identidade por décadas. Para mulheres que concentravam sua vida social no ambiente de trabalho, o fim da carreira pode gerar um vazio inesperado. "Mas esse risco não é um destino. É um momento de transição que merece atenção da própria mulher e também de quem está ao redor", observa Belmonte. Envelhecer com qualidade: Vínculos e autonomia são essenciais Priscila Guerra ressalta que envelhecer com qualidade transcende o controle de doenças. "Quando pensamos em envelhecimento saudável, precisamos olhar para a pessoa de maneira integral. Autonomia, vínculos, estímulo cognitivo, atividade física e participação social também fazem parte da saúde. Ter com quem conversar, sair, compartilhar interesses e continuar tomando decisões sobre a própria vida não é um detalhe", defende a geriatra. A construção e manutenção de amizades na terceira idade são cruciais. O que define uma vida social ativa varia de mulher para mulher: algumas buscam viagens e novos grupos, enquanto outras preferem um café semanal, encontros familiares ou atividades religiosas. "O que importa não é o tamanho desse círculo, mas a qualidade dos vínculos e se eles realmente nutrem aquela pessoa", complementa Cristiane Belmonte. O papel da família: Cuidado sem sufocar a autonomia Dentro de casa, a linha entre cuidado e excesso de proteção é delicada. Filhos que assumem todas as responsabilidades pela mãe podem, inadvertidamente, minar sua independência. "A família pode estar presente sem ocupar todos os espaços. Perguntar o que ela deseja, incluí-la nas decisões, incentivar atividades de que realmente goste e respeitar sua capacidade de escolha também são formas de cuidado. A mulher não deixa de ter desejos, preferências e projetos porque envelheceu", reforça Priscila Guerra. A longevidade feminina, portanto, exige uma reflexão que começa antes da velhice: construir uma vida que não dependa exclusivamente do casamento, dos filhos ou do trabalho para gerar pertencimento. Viver mais é uma conquista, mas manter vínculos, escolhas, autonomia e razões para participar ativamente da própria vida é fundamental para um envelhecimento pleno.