Um Momento Delicado para o Vinho no Mundo, mas Oportunidades no Brasil Sebastián Zuccardi, um dos nomes mais respeitados da viticultura mundial e responsável pelos aclamados vinhos da Zuccardi Vinhos – eleita diversas vezes a melhor vinícola do mundo –, esteve no Rio de Janeiro pela primeira vez para apresentar seus rótulos e promover uma imersão nos vinhos brancos argentinos. Em entrevista exclusiva, Zuccardi compartilhou sua visão sobre o mercado global de vinhos, que descreve como um período de grandes desafios. “Ao viajar para outras regiões vitivinícolas, percebe-se que o consumo de vinho está mais limitado e que há grandes desafios pela frente”, afirmou. Em contraponto, o enólogo destacou o Brasil como uma exceção promissora. “O Brasil é um dos poucos países onde o consumo cresce e tem potencial para continuar subindo”, observou, ressaltando, no entanto, que a alta carga tributária no país encarece o produto e restringe seu alcance. Safra 2026: Uma Promessa de Qualidade Excepcional Um dos pontos altos da conversa foi a expectativa para a safra de 2026 na Argentina. Zuccardi a descreveu como “memorável; daquelas que a gente realmente aproveita, sentindo que tudo flui em harmonia, sem calor excessivo ou chuvas”. Ele detalhou que foi uma safra fantástica, com clima mais fresco, resultando em vinhos com muita energia e pureza. “A safra de 2026 foi maravilhosa, uma das melhores que já realizei em termos de volume e qualidade”, declarou. Zuccardi explicou que a filosofia da Zuccardi Vinhos busca produzir bebidas que espelhem “a pureza e a transparência do lugar”. Para ele, a idade do vinhedo é menos importante que a qualidade do local e o conhecimento adquirido sobre ele. “Acredito que o tempo é necessário para compreender — ou seja, o tempo de atuação como agricultores —, pois não se entende um local logo no primeiro ano; é uma trajetória que vamos percorrendo”, disse. A Revolução dos Vinhos Brancos Argentinos e o Uso do Concreto O enólogo apontou a crescente qualidade e reconhecimento dos vinhos brancos argentinos como uma das grandes revoluções em seu país. Tradicionalmente focada em tintos como a Malbec, a Argentina tem descoberto seu potencial em variedades como a Torrontés, Semillón e Chardonnay, especialmente em altitudes elevadas. “Hoje, com o conhecimento que adquirimos e a possibilidade de cultivar em altitudes mais elevadas graças aos sistemas de irrigação, sabemos que temos locais capazes de produzir brancos incríveis”, enfatizou. Zuccardi também detalhou a importância do uso do concreto na vinificação, um material histórico na região que voltou a ganhar destaque. Ele explicou que o concreto não confere aroma nem sabor, permitindo que o terroir se expresse com pureza, além de oferecer micro-oxigenação e eficiência térmica. “O concreto, como material de fermentação, é histórico na região. As vinícolas antigas de Mendoza eram de concreto”, relembrou. O Futuro do Vinho: Sustentabilidade, Diversidade e Paixão Olhando para o futuro, Sebastián Zuccardi reforçou a importância da sustentabilidade, não apenas ambiental, mas também social e econômica. “Entregamos o local igual ou melhor do que o recebemos é uma responsabilidade, não uma questão de opinião”, afirmou sobre a gestão dos terroirs. Ele também destacou a necessidade de adaptação às mudanças climáticas e a importância da pesquisa e desenvolvimento focada na interpretação dos terroirs. Para Zuccardi, o vinho é mais do que um negócio; é um modo de vida. Ele acredita que, em um mundo em constante mudança, a paixão e a dedicação são cruciais para o sucesso. “Sem dúvida, projetos que não tenham uma razão de ser — que não contem com pessoas que amem o vinho e o produzam para além da simples rentabilidade — enfrentarão dificuldades maiores”, concluiu.