Ameaça Crescente e Exemplos Globais
O uso de inteligência artificial (IA) para criar conteúdos falsos, conhecidos como deepfakes, tem se tornado uma preocupação crescente no cenário político brasileiro e mundial. Em fevereiro, um deputado petista publicou uma imagem gerada por IA mostrando um encontro inexistente entre Jair Bolsonaro e figuras importantes do mercado financeiro, que rapidamente viralizou antes de ser retirada. Este episódio é apenas um reflexo da proliferação de deepfakes de autoridades, com o Observatório IA nas Eleições registrando pelo menos 137 casos envolvendo políticos entre dezembro de 2025 e fevereiro de 2026. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi o alvo mais frequente, mas outros políticos como Jair Bolsonaro e Nikolas Ferreira também foram representados em materiais falsos. A prática já foi observada em eleições municipais e em outros países, como Estados Unidos, Argentina e Hungria, onde deepfakes são usados como estratégia eleitoral.
Desafios Tecnológicos e de Fiscalização
A popularização das ferramentas de IA, muitas vezes acessíveis por preços baixos e com poucas restrições, facilita a criação de deepfakes. Embora as falsificações mais realistas exijam maior conhecimento técnico, a velocidade com que as informações circulam nas redes sociais, muitas vezes sem verificação, potencializa o impacto dessas criações. Especialistas apontam que a identificação de deepfakes por meio de perícias pode levar dias, tempo insuficiente para conter a disseminação e os danos causados em poucos minutos. O baixo índice de checagem de informações online entre os brasileiros agrava a situação, tornando a população mais vulnerável à desinformação.
Medidas do TSE e a Perspectiva de Especialistas
Em resposta a essa ameaça, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aprovou novas regras para o uso de IA nas eleições. As normas autorizam o uso de conteúdo gerado por IA, desde que não retrate falsamente indivíduos cometendo crimes e que o uso da tecnologia seja explicitamente indicado. Foi vetada a circulação de materiais falsificados ou alterados artificialmente nas 72 horas anteriores e 24 horas posteriores aos dias de votação. Além disso, sistemas como ChatGPT e Gemini estão proibidos de recomendar votos ou ranquear candidaturas. As plataformas digitais também terão dever de monitorar ativamente e remover postagens ilegais. Contudo, especialistas ressaltam que a falta de estrutura e poder de fiscalização do TSE, que depende de parcerias, pode limitar a eficácia dessas medidas diante da escala e velocidade da comunicação online.
O Papel do Analfabetismo Digital
O analfabetismo digital é apontado como uma grave vulnerabilidade no Brasil, com cerca de 25% da população considerada analfabeta digital e 53% tendo dificuldades com a internet. Essa falta de letramento, combinada com a expansão descontrolada da IA, cria um cenário propício para a corrosão da credibilidade de instituições e candidatos. Em um ambiente digital ruidoso e pouco fiscalizado, mesmo que um conteúdo falso seja detectado, a confusão gerada pode levar à impressão de que toda informação é duvidosa. A mentira, sempre presente na política, ganha um potencial nocivo sem precedentes com os deepfakes, e sem mecanismos eficientes de controle e conscientização, a batalha para garantir a integridade do debate político está apenas em seu início.

