Sobrecarga e subcarga: um dilema para o futebol feminino
O futebol feminino vive um momento delicado, marcado por um calendário cada vez mais intenso e, paradoxalmente, pela falta de jogos para algumas atletas. Um relatório recente da FIFPro, sindicato internacional de jogadores de futebol, revela que jogadoras de elite enfrentam esgotamento físico e mental devido à agenda lotada, enquanto outras sofrem com a escassez de partidas, o que aumenta o risco de lesões em ambos os cenários. A pesquisa destacou diferenças significativas entre as principais ligas europeias, com campeonatos como o alemão e o francês apresentando uma média de apenas 14 jogos por temporada para suas atletas, o que equivale a cerca de um jogo e meio por mês.
O abismo entre ligas e o impacto no desenvolvimento
O relatório da FIFPro monitorou a carga de trabalho das jogadoras e constatou um aumento no número de partidas para as atletas de ponta, que precisam conciliar compromissos por clubes e seleções, com menos tempo para recuperação. A Women’s Super League, da Inglaterra, exemplifica essa disparidade: uma jogadora do Arsenal, por exemplo, disputou 13 jogos a mais que uma atleta do Crystal Palace, da segunda divisão. Essa falta de tempo de jogo consistente prejudica a preparação das atletas, diminui suas chances de serem convocadas para seleções e amplia o abismo no desenvolvimento profissional.
Estrelas no limite: o caso de Aitana Bonmatí
No outro extremo da balança, jogadoras como Aitana Bonmatí, tricampeã da Bola de Ouro, representam a elite sobrecarregada. Na última temporada, a meio-campista do Barcelona participou de 60 jogos, conquistando títulos nacionais e chegando a finais importantes. No entanto, aos 27 anos, Bonmatí precisou se afastar por cerca de cinco meses após uma cirurgia para tratar uma fratura na fíbula esquerda, sofrida durante um treino com a seleção espanhola. O caso evidencia que, mesmo em grandes clubes e seleções, as atletas de elite não contam com as mesmas estruturas de apoio e recuperação disponíveis no futebol masculino, como voos fretados, equipes dedicadas de nutrição e fisioterapia e infraestrutura completa de recuperação.
Um chamado por investimento e proteção
A diretora da FIFPro, Sarah Culvin, ressalta que a carga de trabalho das jogadoras aumenta mais rapidamente do que os mecanismos de proteção. Jogadoras como Maitane Lopez, da seleção espanhola, reforçam a necessidade de tempo competitivo e criticam a subcarga de minutos para atletas mais jovens, que impede sua evolução. “Elas precisam de tempo competitivo, a subcarga é real. As jogadoras mais jovens não têm minutos suficientes para evoluir”, declarou Lopez. A mensagem é clara: é preciso investir mais em todas as áreas que cercam as jogadoras, garantindo condições adequadas de descanso e recuperação para combater o burnout e priorizar a saúde mental no futebol feminino.

