O Cenário Militar Iraniano: Poder Resiliente Apesar dos Ataques
As recentes negociações entre Estados Unidos e Irã têm sido um palco de idas e vindas, evidenciando a complexidade do tabuleiro geopolítico. Vitelio Brustolin, professor da Universidade Federal Fluminense e pesquisador de Harvard, em entrevista ao CNN Prime Time, desvendou as nuances dessas tratativas diplomáticas. Apesar dos ataques direcionados pelos EUA e Israel, que impactaram significativamente a marinha e a força aérea iranianas, o Irã ainda ostenta um poderio militar considerável. “O Irã ainda tem uma força terrestre bastante forte. São 610 mil militares na ativa e 350 mil reservistas”, detalhou Brustolin. Essa capacidade militar permite ao país manter sua projeção de poder regional, com especial atenção ao Estreito de Ormuz, utilizando táticas com minas navais, drones e mísseis.
Trump e a Pressão Eleitoral: O Fator Tempo nas Negociações
O tempo se configura como um aliado estratégico para o regime iraniano, segundo Brustolin. Com as eleições presidenciais americanas se aproximando em novembro, Donald Trump enfrenta uma pressão eleitoral interna. “O Trump está preocupado com isso, os republicanos, o partido dele está também preocupado”, observou o pesquisador. Ele destacou que parte do eleitorado do movimento MAGA (Make America Great Again) critica Trump por uma postura que contradiz suas promessas de campanha de ser um “presidente da paz”, tendo inclusive alertado sobre o risco de Kamala Harris arrastar os EUA para guerras. Essa contradição pode afetar o apoio necessário para o ex-presidente no Congresso.
O Programa Nuclear e o Impasse nos Acordos
Um dos pontos cruciais nas negociações é o programa nuclear iraniano. Brustolin explicou que, após a saída de Trump do acordo firmado por Obama em 2015, o Irã acelerou o enriquecimento de urânio. “Depois que o Trump saiu do acordo do Obama em 2018, o Irã começou a enriquecer o urânio a 60%. Hoje o Irã tem 440 quilos de urânio enriquecido a 60%. É um salto para enriquecer a 90% e fazer pelo menos 10 ogivas nucleares”, alertou o especialista. As propostas atuais revelam um abismo: enquanto J.D. Vance, vice de Trump, sugeriu um acordo de 20 anos sem enriquecimento, o Irã ofereceu apenas cinco anos. Essa discrepância evidencia a complexidade das negociações e a persistente capacidade de barganha iraniana, mesmo após os bombardeios sofridos.
A Negociação Não é de um País Derrotado
O professor enfatizou que a situação atual não retrata uma negociação com um país militarmente vencido. “O que nós estamos vendo não é uma negociação de um país que perdeu uma campanha militar, mas sim de um país que mantém poder, embora sim tenha sido fortemente alvejado da sua marinha e força aérea e tenha sido fortemente bombardeado”, afirmou Brustolin. Essa resiliência militar e a capacidade de manter um poder de barganha significativo moldam o cenário diplomático em torno do programa nuclear iraniano e das relações com os Estados Unidos.

