Origem da Investigação: Bilhetes no Presídio de Presidente Venceslau
A prisão da influenciadora digital e advogada Deolane Bezerra, na Operação V ženeix, teve seu ponto de partida em uma investigação que começou há seis anos. Em 2019, a apreensão de bilhetes e manuscritos dentro de um presídio em Presidente Venceslau, no interior de São Paulo, revelou conexões com o Primeiro Comando da Capital (PCC). A operação, deflagrada pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP) e pela Polícia Civil, visava desmantelar um esquema de lavagem de dinheiro ligado à facção criminosa.
A ‘Mulher da Transportadora’ e o Início do Esquema de Lavagem
Os manuscritos apreendidos, que continham ordens internas da facção, contatos de alto escalão e ameaças a servidores públicos, levaram à identificação de operadores financeiros e familiares de Marco Herbas Camacho, o Marcola. Dentro do material, uma referência à “mulher da transportadora” chamou a atenção dos investigadores. Essa pessoa era apontada como responsável por levantar endereços de agentes públicos para subsidiar ataques planejados pelo PCC. A partir daí, um novo inquérito foi aberto para identificar essa mulher e investigar a ligação de uma transportadora de cargas em Presidente Venceslau com a facção. As diligências confirmaram que a empresa funcionava como fachada para a lavagem de dinheiro do PCC.
Operação Lado a Lado e a Conexão com Deolane Bezerra
Em 2021, a Operação Lado a Lado aprofundou as investigações, identificando movimentações financeiras incompatíveis e um crescimento patrimonial sem lastro econômico. A empresa Lado a Lado Transportes (também conhecida como Lopes Lemos Transportes) foi apontada como o braço financeiro da facção. A análise do celular de Ciro Cesar Lemos, considerado o operador central do esquema, revelou detalhes sobre a lavagem de dinheiro. Imagens encontradas no aparelho indicaram depósitos em contas de Deolane Bezerra e de Everton de Souza, o “Player”, outro operador financeiro do PCC. A investigação sustenta que valores da transportadora eram destinados a Marcola, seu irmão Alejandro Camacho e familiares, por meio de contas ligadas a “Player” e à influenciadora.
Investigação Aponta Depósitos Fracionados e Empresas de Fachada
Segundo a polícia, Deolane Bezerra recebia valores provenientes do PCC, com parte das movimentações ocorrendo através de depósitos fracionados em espécie, inferiores a R$ 10 mil, prática conhecida como “smurfing”, usada para dificultar o rastreamento financeiro. Entre 2018 e 2021, a influenciadora teria recebido R$ 1.067.505. Além disso, foram identificados quase 50 depósitos em duas empresas ligadas a Deolane, totalizando R$ 716 mil, provenientes de uma empresa apresentada como banco de crédito, cujo responsável recebia um salário mínimo mensal. A polícia não encontrou justificativa para os valores recebidos, nem prestação de serviço jurídico compatível, indicando ocultação e dissimulação de recursos da facção. A projeção pública de Deolane, sua atividade empresarial e movimentação patrimonial teriam sido usadas como “camadas de aparente legalidade” para dificultar a identificação da origem ilícita do dinheiro.
Bloqueio de Bens e Ordens de Prisão
A Justiça de São Paulo autorizou as prisões e buscas com base no risco de destruição de provas, ocultação de patrimônio e interferência na investigação. Foram expedidos seis mandados de prisão preventiva e ordens de busca e apreensão. A Justiça determinou o bloqueio de R$ 357,5 milhões em bens e 39 veículos. No caso de Deolane Bezerra, R$ 27 milhões em bens e valores foram bloqueados, com indícios de lavagem de dinheiro e origem não comprovada.

