Um Profeta Radical na Florença Renascentista
Há mais de cinco séculos, o olhar penetrante de Girolamo Savonarola, um frade dominicano de Ferrara que fez carreira em Florença, continua a ecoar através da história. Em meio à opulência e à corrupção da Florença do século XV, sob o governo dos Médici, Savonarola questionou os costumes libertinos e a decadência moral da Igreja e da sociedade. Seu objetivo, no entanto, não era o poder ou a riqueza, mas sim a transformação de Florença na “Nova Jerusalém”, preparando a cristandade para o que ele acreditava ser o iminente apocalipse.
A “Fogueira das Vaidades” e a República Ideal
Em seu ímpeto reformista, Savonarola buscou criar uma república perfeita, um modelo que, ironicamente, seria criticado por Nicolau Maquiavel. Ele propôs um “governo largo”, com maior participação popular, visando expurgar a cidade de seus pecados e iniciar uma reforma em toda a Igreja e na fragmentada Itália da época. Seu legado mais conhecido é a “Fogueira das Vaidades”, um evento literal onde objetos considerados pecaminosos e que afastavam os fiéis de Deus foram incinerados: instrumentos musicais, obras de arte profanas, livros não religiosos, espelhos, cosméticos e vestimentas luxuosas.
O Conflito com o Papa e a Queda do Profeta
A ascensão de Savonarola gerou forte oposição. Os “Arrabbiati” (os furiosos) eram homens influentes que repudiaram o frade puritano, enquanto os “Brancos” inicialmente o apoiaram, mas depois se arrependeram. Os “Bigi” (cinzas) permaneciam fiéis aos Médici. Paralelamente, o Papa Alexandre VI, o espanhol Rodrigo Borja, estava imerso em questões políticas, na divisão de terras no Novo Mundo e em uma vida devassa. Tentou atrair Savonarola para Roma com promessas de um cardinalato, mas o frade, cada vez mais radicalizado, respondeu: “Um chapéu vermelho? Quero um chapéu de sangue”, proclamando Florença uma teocracia com Cristo como rei, alegando visões místicas.
O Julgamento e o Legado Ambíguo
As profecias e visões de Savonarola tornaram-se cada vez mais extremas, culminando em sua excomunhão pelo Papa em 12 de maio de 1497. Em seguida, foi exigida a “prova de fogo”, um método arcaico para provar sua inocência. Um incidente com chuva e a revolta popular levaram à sua prisão. Sob tortura, Savonarola confessou ter inventado suas visões, mas depois retratou suas confissões. Em 1498, ele e outros dois dominicanos foram enforcados e queimados na Piazza della Signoria, em Florença. Suas cinzas foram jogadas no rio Arno para evitar peregrinações. A história, contudo, reexaminou seu papel: Martinho Lutero o considerou um precursor da Reforma Protestante, e ele inspirou parte do movimento pela unificação italiana. Os olhos frios de Savonarola permanecem como um símbolo do poder hipnótico e da parabola dos que são consumidos pelo excesso de poder, dos revolucionários devorados por suas próprias revoluções e dos profetas que, em sua convicção, não enxergam a própria queda. O dia seguinte ao Natal, com sua atmosfera de reflexão, é um momento propício para contemplar tais paralelos históricos.

