Uso de ferramenta por bovino vira caso de estudo científico
Uma vaca chamada Veronika está no centro de um estudo científico que pode mudar a forma como encaramos a inteligência dos bovinos. Um vídeo que viralizou nas redes sociais capturou o momento em que Veronika, uma vaca de companhia que vive em uma fazenda orgânica na Áustria, utiliza uma escova de cabo comprido de maneira surpreendentemente intencional para se limpar. A análise desse comportamento, publicada na renomada revista científica Current Biology, é a primeira a comprovar experimentalmente o uso flexível e multifuncional de ferramentas por um bovino.
Veronika demonstra habilidade e adaptação
Os pesquisadores da Universidade de Medicina Veterinária de Viena observaram Veronika em diversas sessões, totalizando 76 interações com a escova. O estudo revelou que a vaca não apenas usava o objeto, mas o fazia de forma adaptativa. Ela escolhia com precisão qual extremidade da escova utilizar para diferentes partes do corpo: as cerdas para áreas como as costas e a ponta lisa para partes mais sensíveis, como o úbere e a barriga. Além disso, Veronika ajustava a força e o tipo de movimento, alternando entre gestos amplos e firmes e ações mais suaves e controladas.
Comportamento atende à definição científica de uso de ferramentas
Segundo os cientistas, o comportamento de Veronika se enquadra na definição científica de uso de ferramentas, que envolve a manipulação de um objeto externo para alcançar um objetivo mecânico. Isso exige habilidades cognitivas como antecipação, coordenação e a capacidade de adaptar a técnica. O uso de diferentes partes de uma mesma ferramenta para funções distintas é classificado como multifuncional e, até agora, era documentado apenas em primatas, como chimpanzés.
Inteligência bovina subvalorizada?
O caso de Veronika levanta questões importantes sobre a cognição bovina. Os autores do estudo sugerem que a percepção de uma suposta simplicidade intelectual nesses animais pode estar mais ligada a preconceitos históricos e ao papel utilitário que o gado desempenha na sociedade do que a limitações cognitivas reais. A inteligência de espécies domesticadas, argumentam os pesquisadores, tem sido frequentemente “cognitivamente subvalorizada”, em parte devido a associações culturais ligadas ao consumo de carne. Embora reconheçam que Veronika pode ser um caso isolado, os cientistas defendem que o potencial inovador de animais de fazenda ainda é pouco explorado e que novas observações em diferentes contextos podem revelar mais exemplos de comportamentos surpreendentes.

