O Domínio da Preocupação com a Segurança
Em toda a América Latina, a segurança pública emergiu como a principal preocupação dos cidadãos. Um fenômeno impulsionado pelo fortalecimento de organizações criminosas, muitas vezes ligadas ao tráfico de cocaína, tem levado a um clamor generalizado por medidas mais eficazes de combate ao crime. Essa demanda se reflete nas urnas e nas decisões políticas. Na Argentina, por exemplo, a redução da maioridade penal para 14 anos foi aprovada com votos de deputados da oposição, uma vitória para o governo de Javier Milei. A medida permite que adolescentes nessa faixa etária sejam condenados a até 15 anos de prisão em casos de delitos graves. Essa mudança de mentalidade, impulsionada por problemas semelhantes aos do Brasil, como o envolvimento de menores no tráfico e em crimes violentos, demonstra uma clara inclinação pela abordagem de “mão dura”.
O Efeito Bukele e o Modelo de “Estado de Não Direito”
A preocupação com a segurança foi um fator decisivo na eleição de líderes como José Antonio Kast no Chile. Pesquisas indicam que 55% dos latino-americanos citam a criminalidade e a violência como sua maior preocupação, bem acima da média mundial de 34%. Nesse contexto, o modelo de Nayib Bukele em El Salvador, conhecido por suas políticas rigorosas contra gangues, ganhou destaque. Apesar das críticas internacionais sobre possíveis tendências autoritárias, a população salvadorenha demonstra um apoio expressivo às medidas de Bukele, com índices de aprovação entre 70% e 80%. O artigo argumenta que, em situações onde o crime organizado domina bairros, impõe terror e coage forças policiais, o conceito de “estado de direito” se desvirtua para um “estado de não direito”, legitimando medidas mais duras para a restauração da ordem.
A Nova Realidade Política: “É a Segurança, Estúpido”
O sucesso de líderes que adotam uma postura firme contra o crime é evidente em toda a região. O presidente da Costa Rica, Rodrigo Chaves, convidou Bukele para o lançamento de uma prisão inspirada no modelo salvadorenho. Essa tendência é vista como um avanço de discursos e lideranças de direita, como apontado pelo Financial Times. No entanto, a análise sugere que essa é uma simplificação excessiva. Muitos cidadãos podem apoiar programas sociais, tradicionalmente associados à esquerda, ao mesmo tempo em que exigem rigor policial contra a criminalidade. A percepção de que criminosos são frequentemente soltos por juízes garantistas ofende a maioria da população. Na Colômbia, a ascensão de figuras como Abelardo de la Espriella, com a máxima “a paz só pode ser conseguida pela força das armas e da lei”, ilustra essa mudança de prioridades.
A Segurança como Pilar Eleitoral no Brasil e a Lição de Clinton
No Brasil, a segurança pública é um tema dominante que certamente influenciará as eleições presidenciais. Ignorar essa pauta ou adotar posturas que desagradem segmentos da população, como os evangélicos, pode ser prejudicial para qualquer projeto político. A situação atual remete à famosa frase de campanha de Bill Clinton, “É a economia, estúpido”, que focava na principal preocupação dos eleitores americanos. Hoje, na América Latina, a máxima que ressoa é “É a segurança, estúpido”. A política, como um sistema de seleção de indivíduos astutos, já percebeu essa mudança. Defender ações que banalizam o crime ou desrespeitam valores tradicionais perdeu espaço, sinalizando uma nova era onde a segurança é o fator preponderante para a aprovação popular.

