A busca pela independência na infância e adolescência é um marco no desenvolvimento, mas a questão de quando permitir que os filhos realizem atividades sozinhos, como andar na rua ou ficar em casa, gera dúvidas constantes nos pais. Especialistas em educação e psicologia explicam que não existe uma idade mágica para conceder essas liberdades, mas sim um conjunto de fatores que indicam a prontidão do jovem.
### Foco no Comportamento, Não na Idade
Renato Caminha, terapeuta e educador parental, e Claudia Alaminos, psicopedagoga, concordam que a resposta para a concessão de autonomia não reside em quantos anos o jovem tem, mas sim nos comportamentos que ele manifesta. A capacidade de seguir combinados, lidar com frustrações sem grandes explosões, antecipar reações adequadas a situações difíceis e saber pedir ajuda são indicadores cruciais.
“A autonomia não é uma chave que viramos, ela se constrói gradativamente, e está sempre muito relacionada com a maturidade de cada jovem”, afirma Alaminos. Ela ressalta a importância de observar se a criança ou adolescente demonstra responsabilidade em suas ações e se possui a capacidade de gerenciar pequenas adversidades.
### O Ambiente e a Segurança São Fundamentais
Além da maturidade individual, o contexto em que a criança vive desempenha um papel vital. A segurança do bairro, a disponibilidade de adultos por perto a quem o jovem possa recorrer em caso de emergência e o tempo de ausência dos responsáveis são fatores determinantes. Em ambientes com altos índices de violência, os pais tendem a adiar a concessão de liberdade, o que é compreensível, mas pode impactar o desenvolvimento da autonomia.
Caminha aponta que, antes dos 12 anos, o cérebro infantil ainda não está totalmente preparado para lidar com problemas que possam surgir em períodos prolongados sozinhos em casa. Nesses casos, a recomendação é que fiquem sozinhos por curtos intervalos e sempre com segurança emocional, evitando deixá-los assustados ou sem conforto psicológico.
### Construindo a Autonomia Gradualmente
A introdução de novas situações deve ser feita de forma gradual e supervisionada. Começar com pequenas tarefas, como esquentar a própria comida a partir dos 8 anos, ou permitir que fiquem em casa por poucos minutos, são passos importantes. O processo envolve treinamento e acompanhamento próximo, evoluindo para uma supervisão à distância, até que o jovem demonstre competência e segurança suficientes.
“Essa progressão supervisionada aumenta a segurança e facilita o desenvolvimento de competências fundamentais para uma vida adulta autônoma”, explica Alaminos. Ela compara a construção da autonomia a um quebra-cabeça, montado peça por peça ao longo do desenvolvimento.
### O Cenário Atual e a Ansiedade Parental
Na geração atual, marcada pela tecnologia e pela ansiedade parental elevada devido a notícias sobre violência, é comum que os filhos recebam um nível de supervisão mais intenso, muitas vezes até os 14 ou 15 anos. Pequenas permissões, como ir a um supermercado na mesma rua, geralmente começam por volta dos 12 anos. O ir e vir autônomo se consolida mais efetivamente na adolescência média.
Os especialistas alertam que, enquanto a superproteção é um tema recorrente, oferecer autonomia a quem não está preparado pode ser ainda mais perigoso. O equilíbrio entre proteção e liberdade é a chave para formar jovens independentes e seguros.

