Vera Araújo, uma das jornalistas investigativas mais respeitadas do país, com mais de 30 anos de carreira, sendo 26 deles dedicados ao jornal O Globo, compartilhou em recente depoimento os bastidores de suas apurações sobre o brutal assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes, em março de 2018. A repórter, coautora do livro “Mataram Marielle”, revelou que encontrou resistência por parte de policiais ao apresentar testemunhas e pistas cruciais que, segundo ela, ainda não haviam sido descobertas pelas autoridades.
Machismo na Investigação: “A Reação Foi Minimizar a Descoberta”
Araújo relembrou um episódio específico com o então chefe da Polícia Civil no Rio de Janeiro, Rivaldo Barbosa (posteriormente condenado por obstrução de justiça e corrupção ativa no caso). Ao apresentar testemunhas descobertas em sua apuração, a reação que recebeu foi de descrença: “Eu lembro exatamente o que ele falou: ‘você está inventando essas testemunhas'”, relatou a jornalista. Ela acredita que o fato de ser mulher pesou na forma como suas descobertas foram recebidas.
Um Ambiente Majoritariamente Masculino e a Desvalorização do Trabalho Feminino
A jornalista pontua que o ambiente policial é predominantemente masculino e que, muitas vezes, informações são repassadas com mais facilidade a jornalistas homens. “Quando levei as testemunhas às autoridades, a reação foi minimizar a descoberta. Acredito que tenha pesado o fato de eu ser mulher”, observou Araújo, destacando uma possível desvalorização do trabalho investigativo realizado por mulheres.
A Contribuição do Jornalismo Investigativo para o Caso Marielle
O trabalho de Vera Araújo foi fundamental para o avanço das investigações do caso Marielle Franco. Suas reportagens trouxeram à tona informações e testemunhas que foram cruciais para desvendar a complexa teia de mandantes e executores, culminando na condenação dos irmãos Domingos Brazão e Chiquinho Brazão. A jornalista, autora ainda do blog “Segredos do Crime”, é reconhecida por sua dedicação ao jornalismo investigativo, tendo recebido o Prêmio Especial Tim Lopes em 2009 por sua reportagem sobre a origem das milícias no Rio de Janeiro.
O caso Marielle Franco, que chocou o Brasil e o mundo, expôs não apenas a violência política, mas também as complexidades e os desafios enfrentados pelo jornalismo investigativo, especialmente quando as apurações desafiam narrativas estabelecidas e enfrentam barreiras institucionais.

