IA pode turbinar o aprendizado, mas não substitui o ensino fundamental
A inteligência artificial (IA) generativa, como ChatGPT, Copilot e Gemini, já é uma realidade para a maioria dos estudantes do ensino médio brasileiro, com sete em cada dez alunos utilizando essas ferramentas para pesquisas escolares. No entanto, um estudo recente apresentado por Luciano Meira, professor da UFPE e diretor de Pedagogia da Proz Educação, no Festival LED Globo, lança luz sobre o uso mais eficaz dessas tecnologias na sala de aula. A pesquisa, baseada em estudos internacionais, sugere que a IA é uma aliada poderosa para aprofundar o conhecimento em temas já dominados pelos alunos, mas não se mostra ideal para aprender conteúdos totalmente novos.
“Ou seja, não é bom para aprender algo do zero, mas ajuda com algo que o estudante já sabe”, explicou Meira. Ele reforça a importância do ensino tradicional: “Então, tem que ensinar coisas na mão, no livro. Isso é incrível, mesmo para mim que sou um defensor do uso de tecnologias para aprendizagem.” A pesquisa de origem, de Shaofeng Wang e Hao Zhang, foi lançada em janeiro deste ano.
Desafios e Oportunidades: O Papel do Professor e a Realidade Brasileira
Apesar da alta adoção, apenas 32% dos estudantes que utilizam IA para fins escolares relatam ter recebido orientação em suas instituições de ensino. Esse cenário reflete um receio por parte das escolas em abordar o tema abertamente. “As escolas ainda estão muito temerosas ou montando um ‘pacto silencioso’ entre professores nas instituições. Os docentes sabem que seus alunos usam para desenvolver textos ou exercícios, mas não se sentem seguros para conversar sobre o tema”, afirmou Meira.
Philippa Hardman, pesquisadora da Universidade de Cambridge, cujas recomendações foram apresentadas por Meira, defende que o texto gerado por IA deve ser submetido à análise crítica da turma. “Quem vai fazer isso com nossos estudantes? Nós, professores, claro. Ou seja, em vez de nos substituir, a IA vai nos trazer mais trabalho”, brincou o especialista. Hardman também sugere que os alunos reflitam sobre as respostas da IA e que o uso da ferramenta seja restrito quando o básico do conteúdo ainda não foi aprendido.
Desigualdade Digital Amplifica Disparidades na Educação
A discussão sobre IA na educação também esbarra nas profundas desigualdades do sistema de ensino brasileiro. Rafaela Lima, criadora do canal “Mais Ciências”, destacou que a falta de acesso e formação em tecnologia acentua as disparidades. “O aluno com menos instrução familiar, com menos grana, menos alcance, ele sabe que existe (a inteligência artificial), mas é um uso ainda muito raso”, apontou Lima. Ela ressalta que a desigualdade social se manifesta em todas as esferas, inclusive no acesso e na proficiência com ferramentas digitais.
Daniela Costa, doutora e pesquisadora em educação, complementou o cenário ao afirmar que apenas 22% da população brasileira possui conectividade significativa. Essa limitação impacta diretamente a capacidade de alunos e professores de se beneficiarem plenamente das tecnologias educacionais, incluindo a IA, evidenciando a necessidade de políticas públicas que promovam maior inclusão digital.

