Um marco literário que transcende o tempo
Publicado originalmente em maio de 1956, “Grande Sertão: Veredas”, de João Guimarães Rosa, completa 70 anos de sua chegada às livrarias. A vitalidade de sua linguagem e a profundidade de seu enredo continuam a surpreender leitores e críticos. Para celebrar a data, o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, realizou uma sessão de leitura do romance, destacando sua relevância atemporal.
O impacto de Rosa em terras africanas
O que muitos brasileiros desconhecem é a influência profunda que “Grande Sertão: Veredas” exerceu não apenas na literatura nacional, mas também na produção literária de Angola e, posteriormente, de Moçambique. A obra de Rosa serviu de inspiração para que escritores africanos de língua portuguesa encontrassem caminhos para expressar suas próprias realidades e identidades.
Luandino Vieira: A subversão linguística nascida na prisão
Em 1964, o escritor angolano José Vieira Mateus da Graça, conhecido como Luandino Vieira, foi preso e enviado para o campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde. Lá, em 1969, recebeu uma cópia de “Grande Sertão: Veredas”. A leitura da obra de Rosa permitiu a Luandino vislumbrar a possibilidade de subverter a própria língua portuguesa, angolanizando-a e criando uma literatura distintamente africana. Essa descoberta foi um divisor de águas para a literatura de Angola, conferindo-lhe uma densidade e um sabor únicos, como se percebe em obras como “Lourentinho, Dona Antónia de Sousa Neto & eu” e “Nós, os do Makulusu”.
Mia Couto: O legado que se perpetua
Anos depois, o escritor moçambicano Mia Couto, ao ler Luandino Vieira, empreendeu um exercício similar. Estudando o português popular de Moçambique, profundamente marcado pelas línguas locais, Mia Couto desenvolveu um estilo próprio e inovador. Essa linhagem literária, que parte de Rosa, passa por Luandino e chega a Mia Couto, representa uma das mais belas e surpreendentes aventuras da literatura em língua portuguesa. “Grande Sertão: Veredas”, portanto, continua a gerar novos futuros, provando que alguns livros não envelhecem, mas sim frutificam e espalham suas sementes, do sertão para a savana e além.

