A recente cúpula em Pequim entre o presidente chinês, Xi Jinping, e o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, foi um marco diplomático com o objetivo de estabilizar a complexa relação entre as duas potências. Logo após a partida de Trump, a recepção de Vladimir Putin por Xi reforçou a estratégia chinesa de buscar uma trégua com Washington, ao mesmo tempo em que mantém sua parceria com a Rússia e outras nações aliadas, como um contraponto às pressões americanas. Um briefing do ministro das Relações Exteriores chinês, Wang Yi, revelou o otimismo coreografado de Pequim, permeado por uma profunda desconfiança estratégica.
1. Nova Visão de “Estabilidade Estratégica”
A China propôs aos EUA uma relação pautada pela estabilidade em quatro pilares: positiva, saudável, constante e duradoura. O objetivo é evitar um confronto considerado “desastroso”. Xi Jinping invocou o “Desafio de Tucídides”, questionando a possibilidade de uma potência ascendente e uma estabelecida evitarem um conflito inevitável. A proposta inclui cooperação mútua, competição com limites justos, continuidade nas políticas e coexistência pacífica, respeitando os sistemas sociais e interesses centrais de cada nação. Contudo, analistas apontam que a visão americana ainda tende a encarar a relação como uma disputa de soma zero.
2. Sinergia entre o “Sonho Chinês” e o “MAGA”
Em um movimento político simbólico, Xi Jinping vinculou o “rejuvenescimento da nação chinesa” ao slogan de Trump “Make America Great Again” (MAGA). Segundo o briefing, a visão é que ambos os objetivos podem “caminhar juntos”, promovendo o sucesso mútuo e o bem-estar global. Essa articulação busca criar um terreno comum para a cooperação, embora a competição tecnológica e militar continue a tensionar esse discurso.
3. Agenda Diplomática e a Sombra de Putin
O encontro reativou contatos de alto nível, com o convite para uma visita de Estado de Xi aos EUA ainda neste ano. Os líderes concordaram em manter comunicação frequente. No entanto, a recepção de Putin em Pequim logo após a saída de Trump sinaliza a intenção de Xi de equilibrar a relação com Washington sem isolar Moscou. A China busca usar sua influência econômica sobre a Rússia para garantir tecnologias militares e acordos energéticos favoráveis.
4. Taiwan: A “Linha Vermelha” Inegociável
A China considera Taiwan seu assunto interno mais sagrado e a maior ameaça à estabilidade bilateral. Pequim pressiona os EUA a se oporem à independência da ilha, declarando que “independência de Taiwan e paz são irreconciliáveis como fogo e água”. A percepção chinesa é que os EUA compreenderam essa posição. Contudo, Trump vê as vendas de armas para Taiwan como “fichas de negociação”, mantendo a política de ambiguidade estratégica e a questão sem resolução definitiva.
5. Economia, Tarifas e a Rota da Energia
Para mitigar a guerra comercial, as equipes concordaram em criar conselhos de comércio e investimento, expandir o comércio bilateral com redução recíproca de tarifas e resolver questões de acesso ao mercado. Foram anunciados acordos para a compra de aeronaves Boeing e produtos agrícolas pela China. Paralelamente, Xi busca diversificar a segurança energética com o projeto do gasoduto Power of Siberia 2, visando aumentar as importações terrestres de gás russo, devido à instabilidade no Estreito de Ormuz.
6. Geopolítica: Ucrânia e Oriente Médio
A China defende o diálogo e a paz na Ucrânia e no Oriente Médio, incentivando negociações entre EUA e Irã. Pequim prefere o diálogo à força e pede a reabertura do Estreito de Ormuz com base em um cessar-fogo permanente. Xi enfatizou que o uso da força não resolve problemas e que o diálogo é a única opção. Quanto à Ucrânia, ambos os líderes expressaram o desejo de um fim rápido para o conflito e concordaram em manter comunicação para buscar um acordo político. No entanto, relatórios de inteligência americana indicam que a China continua a fornecer itens de uso dual que sustentam o esforço de guerra russo, algo negado pelo governo chinês.
7. Diplomacia Cultural e Soft Power
Xi Jinping anunciou uma iniciativa para convidar 50 mil jovens americanos para intercâmbios na China nos próximos cinco anos, visando fortalecer a relação bilateral através da base popular e da juventude. O passeio dos líderes pelo Templo do Céu foi destacado como um símbolo de harmonia e autoridade imperial, usado por Xi para projetar grandeza civilizacional e reforçar a ideia de harmonia e amizade entre os povos.

