Documentário de Lucia Murat transforma vivências de alunos da Zona Norte em reflexão sobre racismo e educação, recebendo Menção Especial do Júri Jovem em Berlim.
O documentário ‘Hora do Recreio’, dirigido por Lucia Murat, chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 12 de março, trazendo para as telas as histórias e inquietações de estudantes da rede pública do Rio de Janeiro. O filme, que já conquistou a Menção Especial do Júri Jovem na mostra Generation 14Plus do Festival Internacional de Cinema de Berlim, mergulha no cotidiano da educação pública, utilizando a plataforma da estação de trem do Engenho Novo e os arredores da Escola Municipal Luís de Camões como cenários para encontros e reflexões juvenis.
O Reconhecimento em Berlim e a Conexão com o Público Jovem
Para Lucia Murat, o prêmio em Berlim tem um significado especial por ter sido concedido pelo público jovem que o filme retrata. “Acho que essa experiência e o prêmio mostram que o filme consegue transmitir a realidade brasileira e criar empatia, mesmo em um país tão diferente como a Alemanha”, afirmou a diretora. O longa promoveu, antes de sua estreia comercial, uma série de sessões especiais e gratuitas para estudantes, professores e grupos artísticos, especialmente da Zona Norte do Rio, onde parte significativa das filmagens ocorreu.
‘Clara dos Anjos’ como Ponte entre Passado e Presente
Uma das ferramentas narrativas centrais de ‘Hora do Recreio’ é a encenação de ‘Clara dos Anjos’, romance de Lima Barreto. A obra, publicada no início do século XX, serve como catalisador para discussões sobre racismo estrutural, feminicídio e evasão escolar. Lucia Murat explica que a escolha do texto literário foi intencional, buscando criar uma conexão entre as problemáticas sociais do passado e as realidades enfrentadas pelos jovens hoje. “A comparação entre o que acontecia no início do século XX e o que ainda acontece hoje é inevitável”, ressaltou.
A Importância de Levar o Cinema para as Escolas
A diretora defende que a exibição do filme nas escolas é uma obrigação ética e política, indo além de uma simples ação de divulgação. Ela critica a falta de políticas públicas consistentes que promovam o acesso de estudantes da rede pública ao cinema, tornando essa experiência muitas vezes cara e distante. “No caso de ‘Hora do Recreio’, isso é ainda mais importante, porque os protagonistas são estudantes da rede pública”, enfatiza Murat, que organiza sessões para alunos, familiares e escolas de ensino médio.
Impacto e Coragem dos Jovens Protagonistas
A equipe de filmagem foi profundamente impactada pela realidade encontrada. “Quando filmamos a primeira escola, que abre o documentário, a equipe inteira chorou”, relembra Murat. Ela destaca a coragem dos jovens ao relatarem histórias difíceis, que vão além das denúncias. A Escola Municipal Luís de Camões, que completa 85 anos, é um dos espaços centrais na narrativa, e sua presença em um festival internacional carrega um forte simbolismo. Estudantes como Amélia Porfírio e Raquel Martins compartilharam suas experiências, ressaltando a importância de discutir temas como o racismo e como a arte pode dar visibilidade a realidades muitas vezes ignoradas.
Michel Azevedo, professor do ensino fundamental II, descreve a participação no projeto como transformadora, permitindo que debates sensíveis como o racismo transcendam os limites da sala de aula. Lucia Murat conclui refletindo sobre o poder do cinema: “O cinema não muda a realidade sozinho. Mas pode, e muito, lançar luz sobre ela, ampliar o acesso às questões que precisam ser debatidas e provocar reflexão.”

